Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Silent Hill

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A cidade névoa
Não mais me assombra
O pesadelo é toda hora

Não tenho controle
Nem armas para defesa
Na virtualidade havia segurança
Restam hoje o susto e o sobressalto
Apenas realidades alternativas
Que alternam o horror cotidiano
E o cansaço da corrida
Com a melancolia cinza
E o medo encarnado

Não sou protagonista
Tampouco criatura
Porto-me portador
Da maldição de observar
Compreender a trama
E apenas agir na linha limítrofe
Da programação rearranjada

Sobram a mim então
Percorrer os becos escuros
E roer as unhas até não mais tê-las

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Maquete

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Ele falava do viver-junto
Mas aprendo a viver junto
De mim
Simulação romanesca
Autoficção constante
Distância crítica
Assisto às minhas ações
Como num filme
Leio entrelinhas
Todas as notas de rodapé
Retorno a capítulos já visitados

Sou estudante e professor
Do meu alcance
Manipulo-me até
Ser massa disforme
E moldo-me incessante

Tranformado
Transtornado
Transviado
Mas nunca trancado

Sou solto
Palco e plateia
Simultâneos

Liminar

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Descobri hoje
Para a justiça e para a psicologia
Sou doente enfermo
Paciente transtornado
E por isso
Preciso de tratamento
Remediação

Coberto hoje
Para morto amanhã

Tenho de ser recluso fora
Longe da comunidade
Quarentena sexual
Chaga do desejo indiscutível
Que de tão proibido
É objeto obscuro
De muitos em negação

Não!

Recuso a medicação
Pílula-veneno
E aceito a delícia da febre
Daquilo que pulsa em dor
A respiração que ofega
Mas nunca falha
O peito arfante em suor frio
Os dedos que agarram cama e carne
Em busca do norte
E da morte doce como o doce
Que você secreta só para mim

Que deixem a cura ao cu dos malditos
Supositórios malignos
Pois do meu cu cuido eu
E introduzo nele o que eu quiser

Presa

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Semana passada
Pela primeira vez
Senti o medo
Em casa
Onde nunca o horror
Deveria residir
Mas ele entrou
Sem convite
Visita inesperada
Pude ouvir do corredor
Vozes

Casa só de veado
Bando de bichona
Tudo baitola

A obviedade na chacota
Porém a ameaça do humor
Impetuoso

Semana passada
Pela primeira vez
Senti a segurança deslocada
De casa
As portas tornaram-se papel
Minha pele suscetível à faca
As chaves inúteis todas
Só pude pensar
Em como fugir
De casa
Porque por segundos
De casa eu não era mais

Sobrevivência animalesca
De ratos contra a parede
Esperando
O inimigo furar meu ventre
Tomado pelo furor do desespero

Da Jaula

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Anos corridos
E retorno
Ao entorno da jaula

Onde antes vivia
Criatura de pelos e de garras
Amansada pelos olhares
De carícia e exibição
Restam o nada e a natureza

A materialidade da ausência
Me impele para fora
Não há mais barras
E ainda assim
Não ouso transpassá-las
Não ouso atrever-me
Não ouso pisar em terreno sacro
E seco de vida que não mais é
Pois o animal que vivia dentro
Vive ainda dentro mas secreto
Ele secreta das presas raiva e ruído
E tem a certeza da solidão
Porque da jaula
Ele nunca vai querer sair

Desconforto

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Acordo todas as manhãs
De sonhos-silêncio
E meu corpo está sujo
Carvão fuligem negra
Do incêndio que é meu peito
Mina habitada pela criatura
Que implora conforto todo dia
Mas nunca o tem então
Roga confusa feito criança
Que não sabe por que chora
Que tampouco entende a tristeza
Do confinamento em si mesma
Que procura fuga e por isso dói

Rasga de dentro para fora a carne
Esmaga com punhos cada osso
Me estira músculo e fibra
Me abre enfim

Dor é salvação
O alívio meu Deus o alívio
O horror da plenitude
O vácuo em mim
E a felicidade da criatura
Que foge livre

Análise

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Nem com lança
Tampouco com injúria
Juro que sou o humano
Pós civilização de Freud
E digo humano para não dizer homem
Pois preciso afirmar minha humanidade
Para saciar o monstro que me acorda
Todos os dias
Em todos os lugares
Especialmente quando vivo-junto
De outros tantos
Estranhos que insistem na dizimação
Mútua por meio
De lanças e injúrias
Tão próximos porém longínquos
Como a paisagem que exige a distância
Para não expor sua feiura
Como a doença que secreta
Come carne sob lupa de aumento

Sinto medo do prazer que
Sinto muito
Ao usar as armas dos outros
A meu favor

Fantasmagoria

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De todos os fantasmas
Minha asma foi um dos menores

O agora-mesmo de sua ausência me faz
Visitas ao menos uma vez por semana
Agouro de pelo e cabelo
Negros de piche e noites mal dormidas

Para ser achado me encolho
Debaixo de lençóis com apenas
Os dedos do pé para fora
E espero seu toque que me desespera
Pois é quente demais para vir de uma simulação

Como uma realidade dormitiva
Que desperta do susto de um cochilo
Durante tardes de calor
O suor me agarra na roupa
Como agarram-me suas mãos
Grandes fortes que me amassam
A pele e a resistência
À falta de ar que provoca você

É assombroso que nada tenhamos feito
Mas que tudo tenha sido feito

Tritão

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Não exiges de mim enigma algum
Devoras-me sem o direito de escolha
E gosto

Como demonstração de piedosa fome
Antes me seduzes com tempestade e ímpeto
De quem com o som constrói o sentimento
Vindo de todas as vísceras do nosso corpo

Homem-peixe
Teu membro rijo me consola continuamente
Impiedoso e intermitente
Invasor de vazios que precisam ser preenchidos
Com constância e candura
Amante marinho que apesar do mar trôpego
Consegue sempre manter minha náusea
Em terra firme

A loucura de Odisseu é febre quente
Cuja cura virá somente quando preso
Em teu mastro
Encurralado pelo teu encanto
Serei a sempre tua
Distância e aproximação
Da década que nos coloca juntos
Como a frágil linha que liga
Nosso mais abissal monstro
Ao nosso mais humano corpo

Mergulhemos?

Betania

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Somos filhos da madrugada

Entre-lugar
Momento de transição
Nem dia tampouco noite
Apenas o silêncio do negrume
Do mundo

Negrume que se entranhou
Em seus olhos
Pérolas negras atlânticas
Profundidade de oceanos seculares
Embora venhamos das águas
Há o fogo-signo que nos retroalimenta
Os amores e as vontades
De sermos senhores de nós mesmos
Absolutos indissolutos
Inteiros nós e inteiramente todos os outros
Que bem sabem da nossa performance de ser

Embora venhamos do fogo
Forjaram-nos da água turva cheia
De sargaço
Lua cheia de ressaca bravia
Valentes não somos nós
Mas sim aqueles que se atrevem
A nadar no vasto oceano
Que construímos dentro
E fora da força
Que nos mantém de peito aberto

Para o sal marinho
Que brota de nossas mãos
Para as cinzas do incêndio
Que se inicia dos nossos pés

Energia motriz que ilumina
Com um sorriso