Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Futuro

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O fogo consome-nos
Come nos mais pequenos
Pormenores

Marinetti anteviu em chamas
O Museu Nacional? Previu
Luzia ardendo em carvão?
Ou alucinou os dinossauros
Mortos morrendo novamente?

A estrutura está frágil
Quebradiça como ovo fraco
Oco e burro cheio de ignorância

O museu não se levanta mas
É jogado à força ao chão
Brasa pau-brasil que exala
Fumaça, cinzas e podridão
Com violência o solo é infértil
Aculturado e sem cultura

Mas todos eles não passarão

Pois resistem raízes a despeito
De tudo que nos golpeia
Diariamente

O desespero é a única esperança que nos espera

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Feminino

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Referência revolucionária
Quando criança

Guerreiras povoavam-me
Com força e magia
Fascinavam-me as roupas
As espadas e o poder
Meninas e mulheres mágicas

Mas mais que isso
Queria sê-las

Porém meus monstros eram maiores
Tão reais quanto quando eu
Tocava meu corpo em culpa

Desarmado e fraco
Afeminado a contragosto
Do universo de dedos que apontavam
Para o fato irrefutável do que sempre fui
E que sempre me negaram saber

Imaginação era a fuga
Para uma liberdade por vir

Apenas com o tempo
Aprendi a desembainhar
A espada do pulmão

Será por isso a asma?

Bruxismo

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Gargalhada de boca fechada
Dentes cerrados
A verruga está na garganta
E a fogueira na cabeça

Trinca… Trinca… Trinca…

Rachaduras da parede arranham dentro
Sulcos na ponta dos dedos
As unhas não crescem
Mas morrem devoradas
Como alimentos ao abismo
De quem arde no fogo de si

Range… Range… Range…

As mãos trêmulas mantêm-se
Mesmo com poção:
Beba-me e coma-me e foda-me
Até eu sublimar
E ultrapassar de meu corpo
A angústia intermitente
Como uma pressão nos ouvidos
Como uma linha distendida
Como uma lesma na lâmina da faca

O terror, o bode e o corvo

Ecco

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Como uma experiência
Mantém-se impregnada
De som?

Sua melancolia me encharca
Quando me vem à mente
A solidão que turva
Que embaça
Que preenche como água
E bolhas à superfície

A tristeza ecoa do fundo
Da época em que só eu
Jogava você só
Em busca infante

Corais de cor
Coração sem ar
Enquanto você aventurava-se
Eu perdia-me no mundo
Que não era meu

Éramos solitários, eu e você
Peregrinos de profundezas
À procura dos iguais distantes
Mas no meio do caminho a pedra
A rocha, o obstáculo e o tubarão
E nunca o diamante, o alimento
A passagem e a segurança
Da plácida certeza do oceano
Fora de você
Dentro de mim

Não há retorno

Maresia

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A pedra não ama o mar
Espuma ácida corrosiva

Demorou quase dez anos
Apenas para o desgaste

E a pedra deforma-se
Chora sem saber nada

De onde vêm as lágrimas
Se na solidão de oceanos

A felicidade é molhada
A felicidade é molhada
A felicidade é molhada

E o desespero queima
Feito o sol de meio-dia

Todo dia essa crueldade
Onda impiedosa que chega

Cada vez mais próximo
Ao cerne do problema

Ao núcleo quente da rocha
Que parece esfriar sempre

Com o tempo

Silent Hill

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A cidade névoa
Não mais me assombra
O pesadelo é toda hora

Não tenho controle
Nem armas para defesa
Na virtualidade havia segurança
Restam hoje o susto e o sobressalto
Apenas realidades alternativas
Que alternam o horror cotidiano
E o cansaço da corrida
Com a melancolia cinza
E o medo encarnado

Não sou protagonista
Tampouco criatura
Porto-me portador
Da maldição de observar
Compreender a trama
E apenas agir na linha limítrofe
Da programação rearranjada

Sobram a mim então
Percorrer os becos escuros
E roer as unhas até não mais tê-las

Maquete

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Ele falava do viver-junto
Mas aprendo a viver junto
De mim
Simulação romanesca
Autoficção constante
Distância crítica
Assisto às minhas ações
Como num filme
Leio entrelinhas
Todas as notas de rodapé
Retorno a capítulos já visitados

Sou estudante e professor
Do meu alcance
Manipulo-me até
Ser massa disforme
E moldo-me incessante

Tranformado
Transtornado
Transviado
Mas nunca trancado

Sou solto
Palco e plateia
Simultâneos

Liminar

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Descobri hoje
Para a justiça e para a psicologia
Sou doente enfermo
Paciente transtornado
E por isso
Preciso de tratamento
Remediação

Coberto hoje
Para morto amanhã

Tenho de ser recluso fora
Longe da comunidade
Quarentena sexual
Chaga do desejo indiscutível
Que de tão proibido
É objeto obscuro
De muitos em negação

Não!

Recuso a medicação
Pílula-veneno
E aceito a delícia da febre
Daquilo que pulsa em dor
A respiração que ofega
Mas nunca falha
O peito arfante em suor frio
Os dedos que agarram cama e carne
Em busca do norte
E da morte doce como o doce
Que você secreta só para mim

Que deixem a cura ao cu dos malditos
Supositórios malignos
Pois do meu cu cuido eu
E introduzo nele o que eu quiser

Presa

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Semana passada
Pela primeira vez
Senti o medo
Em casa
Onde nunca o horror
Deveria residir
Mas ele entrou
Sem convite
Visita inesperada
Pude ouvir do corredor
Vozes

Casa só de veado
Bando de bichona
Tudo baitola

A obviedade na chacota
Porém a ameaça do humor
Impetuoso

Semana passada
Pela primeira vez
Senti a segurança deslocada
De casa
As portas tornaram-se papel
Minha pele suscetível à faca
As chaves inúteis todas
Só pude pensar
Em como fugir
De casa
Porque por segundos
De casa eu não era mais

Sobrevivência animalesca
De ratos contra a parede
Esperando
O inimigo furar meu ventre
Tomado pelo furor do desespero

Da Jaula

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Anos corridos
E retorno
Ao entorno da jaula

Onde antes vivia
Criatura de pelos e de garras
Amansada pelos olhares
De carícia e exibição
Restam o nada e a natureza

A materialidade da ausência
Me impele para fora
Não há mais barras
E ainda assim
Não ouso transpassá-las
Não ouso atrever-me
Não ouso pisar em terreno sacro
E seco de vida que não mais é
Pois o animal que vivia dentro
Vive ainda dentro mas secreto
Ele secreta das presas raiva e ruído
E tem a certeza da solidão
Porque da jaula
Ele nunca vai querer sair