Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Desconforto

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Acordo todas as manhãs
De sonhos-silêncio
E meu corpo está sujo
Carvão fuligem negra
Do incêndio que é meu peito
Mina habitada pela criatura
Que implora conforto todo dia
Mas nunca o tem então
Roga confusa feito criança
Que não sabe por que chora
Que tampouco entende a tristeza
Do confinamento em si mesma
Que procura fuga e por isso dói

Rasga de dentro para fora a carne
Esmaga com punhos cada osso
Me estira músculo e fibra
Me abre enfim

Dor é salvação
O alívio meu Deus o alívio
O horror da plenitude
O vácuo em mim
E a felicidade da criatura
Que foge livre

Análise

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Nem com lança
Tampouco com injúria
Juro que sou o humano
Pós civilização de Freud
E digo humano para não dizer homem
Pois preciso afirmar minha humanidade
Para saciar o monstro que me acorda
Todos os dias
Em todos os lugares
Especialmente quando vivo-junto
De outros tantos
Estranhos que insistem na dizimação
Mútua por meio
De lanças e injúrias
Tão próximos porém longínquos
Como a paisagem que exige a distância
Para não expor sua feiura
Como a doença que secreta
Come carne sob lupa de aumento

Sinto medo do prazer que
Sinto muito
Ao usar as armas dos outros
A meu favor

Fantasmagoria

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De todos os fantasmas
Minha asma foi um dos menores

O agora-mesmo de sua ausência me faz
Visitas ao menos uma vez por semana
Agouro de pelo e cabelo
Negros de piche e noites mal dormidas

Para ser achado me encolho
Debaixo de lençóis com apenas
Os dedos do pé para fora
E espero seu toque que me desespera
Pois é quente demais para vir de uma simulação

Como uma realidade dormitiva
Que desperta do susto de um cochilo
Durante tardes de calor
O suor me agarra na roupa
Como agarram-me suas mãos
Grandes fortes que me amassam
A pele e a resistência
À falta de ar que provoca você

É assombroso que nada tenhamos feito
Mas que tudo tenha sido feito

Tritão

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Não exiges de mim enigma algum
Devoras-me sem o direito de escolha
E gosto

Como demonstração de piedosa fome
Antes me seduzes com tempestade e ímpeto
De quem com o som constrói o sentimento
Vindo de todas as vísceras do nosso corpo

Homem-peixe
Teu membro rijo me consola continuamente
Impiedoso e intermitente
Invasor de vazios que precisam ser preenchidos
Com constância e candura
Amante marinho que apesar do mar trôpego
Consegue sempre manter minha náusea
Em terra firme

A loucura de Odisseu é febre quente
Cuja cura virá somente quando preso
Em teu mastro
Encurralado pelo teu encanto
Serei a sempre tua
Distância e aproximação
Da década que nos coloca juntos
Como a frágil linha que liga
Nosso mais abissal monstro
Ao nosso mais humano corpo

Mergulhemos?

Betania

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Somos filhos da madrugada

Entre-lugar
Momento de transição
Nem dia tampouco noite
Apenas o silêncio do negrume
Do mundo

Negrume que se entranhou
Em seus olhos
Pérolas negras atlânticas
Profundidade de oceanos seculares
Embora venhamos das águas
Há o fogo-signo que nos retroalimenta
Os amores e as vontades
De sermos senhores de nós mesmos
Absolutos indissolutos
Inteiros nós e inteiramente todos os outros
Que bem sabem da nossa performance de ser

Embora venhamos do fogo
Forjaram-nos da água turva cheia
De sargaço
Lua cheia de ressaca bravia
Valentes não somos nós
Mas sim aqueles que se atrevem
A nadar no vasto oceano
Que construímos dentro
E fora da força
Que nos mantém de peito aberto

Para o sal marinho
Que brota de nossas mãos
Para as cinzas do incêndio
Que se inicia dos nossos pés

Energia motriz que ilumina
Com um sorriso

De poeta a poeta

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Escrevo-te não por querer
Mas por precisar
Da precisão
Dos teus movimentos

Talvez venha daí
O peso das minhas palavras
Chumbo-corpo que me põe
Em profundidades
Talvez venha daí
A leveza das tuas
Músculo-semântico que te ascende
Às alturas

Admiro a solaridade
Que emanam teus cabelos e olhos
O que faz de tua fotossíntese
Uma poética do prazer:
Mastigo e digiro
Amargas ou doces
Todas as tuas palavras
Sem indigestão

Já eu soturno que sou
Giro em torno das minhas
Saturno melancólico
Nauseanel inconstante
Que me força para fora tudo
Até que me reste nada
Senão a bílis negra

Mesmo assim
Somos poetas
Mesmo assim
Somos professores
Mas apenas tu és o mestre
Das artes indeléveis e leves
Do corpo e do corpo
Do texto

Aprendo contigo

Nina

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Rufo o tambor

Sola chapa sobre terra
Firme forma de menina
Cujos olhos-lança caçam
Os sentidos mais interditos
Das florestas mais escuras

Você extrai a vida da seiva
De cor castanha como os cabelos
Que lhe recaem sobre os ombros
Fortes
De quem veio para conquistar
Desbravadora de terrenos novos
Inseguros incautos

Brava!
Que com rigor cerra punhos
E encerra assuntos
Tal como os fez
A linhagem de mulheres
Antes de você

Selvática domadora
Da cultura e da natureza
Faça uso do gênio irrequieto
Com sabedoria gentil
E não permita nunca
Que os animais invadam
A selva só sua

Aqui

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Aquele que fala da verticalidade
Das cidades
Mente

No horizonte talvez
Faça sentido ao olhar
Falos-concreto ao céu arranhado
Alinhados de bloco chumbo como facas
Fincadas em terra entretanto
Quanto mais perto menos
Verticais as retas

As estruturas curvam-se às avenidas
Diagonais súditas que buscam no asfalto
O alimento necessário à metrópole
Pois a fome de vida é de todos os tolos
O pai que faz sucumbir antes de dar de comer

Fossem chicletes mastigam-se corpos por dentes
Daqueles que nem sequer possuem boca
Sem cor nem sabor a pele ganha rigidez
E o material disforme é cuspido fora
Úmido porque inútil
Inútil porque humano
Humano porque vazio

Aqui jaz o poeta
Sem resistêntcia

Daniel

 

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Foi da constelação
A primeira estrela
Cadente ciente
Do amor esperado

Olhar vitral profundo
Vidrado universo de planetas
A descobrir

Garoto peralta
Astronauta inverso
Que preferiu desvelar da terra
As palavras a desvendar do espaço
Os mistérios

Coração de fogo pálido
Que aquece mas não queima
Crepitação constante
Gentil ao toque
Aos ouvidos doce
É você que mantém acesa
A minha chama

Resistência fria
Ao vácuo da galáxia
E à ausência do oxigênio

Norteia-me!
Enquanto observo o céu
À noite

 

Redações

1989+Lucian Freud+Naked Man on Bed.jpg

Ana C
Não há corpo!
Esses são corpos quem sabe copos
Com a boca virada para baixo
Enfileirados à espera de filetes
De sangue
Translucidamente embriagado
Por sono quem sabe cansaço
De olhar muito tempo o corpo de um texto
Até perder de vista o que não seja corpo
Estrutura mole quem sabe líquida
Ósseo-sintaxe que derrete nas mãos
Feito parafina quente
Os corpos se difundem no momento exato
Em que minha gengiva sangra manchando
A língua