Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Month: November, 2012

Mesmice

O instante de despertar é o instante mais perigoso do dia
(o animal está mais próximo de nós do que do homem)

Desperto.

Samsa de Kafka
Neste momento
Estaria despertando duma noite de sonhos intranquilos
Para logo se descobrir desprezível inseto
Estaria abrindo os olhos inumanos e observaria
A janela oblíqua,
A névoa densa,
A chuva que cairia e que nunca vai cair,

Mas então percebo logo que
Também
O mesmo eu não sou mais

O mesmo,
O mesmo ser,
O mesmo corpo,
O mesmo modo,
O mesmo medo,

Ser
Pois ser o mesmo já não é possível
Quando sou eu que assim me faço
O escritor tcheco não nos define o nós
Ao dizer que coexistimos entre o animal e o homem
Sou tanto um quanto outro sendo também nenhum dos dois.

Corpo
Conto dos corpos que me afetam
Os tantos corpos que eu já fui e assimilei
O desejo é plural numa existência única porém
Outra e outra e mais outra e outra mais
É a vida que preenche minha carapaça de parecer.

Modo
Pois modo meu modela-se de moldes alheios
Desde pequeno me porto assim
Mimético,
Mímico,
Representando o teatro dos outros sem sequer pedir permissão
Assimilando os carneiros ao meu redor feito o leão de Valéry
E após tanto regurgitar para continuar digerindo
Me vejo perante um único modo de ser
Eu.

Medo
Cecília uma vez pensou o medo de acabar
(ou talvez quem sabe o sonhou)
Tu tens um medo, ela me disse

Acabar.

Não sou eterno
Sou tão finito quanto uma bolha de sabão
(mesmo sendo a mais clichê das imagens)
Mas só então percebo que
Assim como sou feito de retalhos de outros
(e dentro de mim vivem)
Estes outros também são feitos de retalhos meus
(e dentro deles vivo)
E se eu
Nalgum dia me for
Não sei para onde
Independente de religião,
De Deus,
De Diabo,
Sujo em bênção
Ou puro em pecado
(mas o mais importante!)

Amando

Sei que ainda serei e estarei
Eterno por (ident)idades imensas

How beautiful could a being be?

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Paca Tatu Cotia Não

Eles nos dizem: “Digam!
Paca tatu cotia não!”
E nós obedecemos: “Diremos!
Paca tatu cotia não!”
Então cegos repetimos
Aquilo que está na cara,
O não tão explícito
Quanto o dito que quando dito
Não nos é dito.

Fragments D’Un Discours Amoureux Par R. B.

Mesmo diante de inúmeras possibilidades de impossibilidades arrasadoras, num momento de silêncio ele para para, logo em seguida, iniciar a pergunta que desencadearia o diálogo que iniciaria sua vida que não era uma das melhores. Você está gostando de mim, pergunta, Não sei, responde, Por quê, novamente pergunta, Não tenho certeza, novamente responde. O silêncio permeia os redores de cabeças fosse auréola de duras dúvidas. Nem eu, continua, É, talvez, completa, É, não sei, continua novamente, Não, tenho certeza, afirma em firmeza. Sem notarem a notável diferença que uma vírgula pode fazer, os dois amantes se alinham, pela primeira vez, um ombro é beijado e uma cabeça recostada na outra; mãos se juntam na afinidade afetiva de simplesmente estarem ali, sendo-humanos, e na espera de algo acontecer, percebem o quão revolucionária pode ser uma pergunta, ainda mais sua resposta. Amem, amém.

Dáguas

Na escuridão da noite vê-se o poema divisor
Dáguas de tempos vividos.
Um fôlego,
Uma voz que toma conta do quarto penumbra.
Quatro
Olhos buscam sem medo na sombra o som
Daquilo que ausenta.
Senta
Que lá vem história para manter boi acordado
De torpor longo de ruminação constante.

Noite de nó longo, não te notes a ver-nos a falar,
Pois é o longo torpor de constante ruminação que nos regurgita
A lei maldita
Do cão.

Em Silêncio

Em silêncio é que meu coração bate
(incerto, instável)
Corda de couraça de sabão
Mas mais vêm dos olhos que do músculo
Os sentimentos imundos do mundo
Que tanto o limpam
Pois sem som é que ele pulsa
(pula, pulula)
Diante do poder poder com o qual

Eu posso amar.

Da Procura

São dos olhos que me vem aquilo que sempre procuro
E inútil leio R. B. à espera de
Tua pessoa
Me traz assim uma calma sem fim
Quando são dos olhos que me vem aquilo que sempre procuro.

Te procuro do atropelo da multidão que passa
(digna de indigna morte barthiana).
Nem para encontrar você no caminho,
Tigrãozinho,
Nem para comigo ser assim!
Mas então, é da massa multidão que procuro
E acho
Dois raios de sóis que alumiam minha manhã.

Sois sóis, e sorrio.