Mesmice

by Matheus Trunkle

O instante de despertar é o instante mais perigoso do dia
(o animal está mais próximo de nós do que do homem)

Desperto.

Samsa de Kafka
Neste momento
Estaria despertando duma noite de sonhos intranquilos
Para logo se descobrir desprezível inseto
Estaria abrindo os olhos inumanos e observaria
A janela oblíqua,
A névoa densa,
A chuva que cairia e que nunca vai cair,

Mas então percebo logo que
Também
O mesmo eu não sou mais

O mesmo,
O mesmo ser,
O mesmo corpo,
O mesmo modo,
O mesmo medo,

Ser
Pois ser o mesmo já não é possível
Quando sou eu que assim me faço
O escritor tcheco não nos define o nós
Ao dizer que coexistimos entre o animal e o homem
Sou tanto um quanto outro sendo também nenhum dos dois.

Corpo
Conto dos corpos que me afetam
Os tantos corpos que eu já fui e assimilei
O desejo é plural numa existência única porém
Outra e outra e mais outra e outra mais
É a vida que preenche minha carapaça de parecer.

Modo
Pois modo meu modela-se de moldes alheios
Desde pequeno me porto assim
Mimético,
Mímico,
Representando o teatro dos outros sem sequer pedir permissão
Assimilando os carneiros ao meu redor feito o leão de Valéry
E após tanto regurgitar para continuar digerindo
Me vejo perante um único modo de ser
Eu.

Medo
Cecília uma vez pensou o medo de acabar
(ou talvez quem sabe o sonhou)
Tu tens um medo, ela me disse

Acabar.

Não sou eterno
Sou tão finito quanto uma bolha de sabão
(mesmo sendo a mais clichê das imagens)
Mas só então percebo que
Assim como sou feito de retalhos de outros
(e dentro de mim vivem)
Estes outros também são feitos de retalhos meus
(e dentro deles vivo)
E se eu
Nalgum dia me for
Não sei para onde
Independente de religião,
De Deus,
De Diabo,
Sujo em bênção
Ou puro em pecado
(mas o mais importante!)

Amando

Sei que ainda serei e estarei
Eterno por (ident)idades imensas

How beautiful could a being be?

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