Suporte

by Matheus Trunkle

Antes mesmo de estar prestes a deitar com cabeça sobre travesseiro, já me vem a bendita aflição. É como se a cama em sua falsa promessa de conforto me avisasse assim que ao quarto me colocasse, Vê se te cuida, homem, a noite de hoje não tá pra sonhos não. Mesmo com coração numa mão e cabeça noutra, passo por cima de tal informação dada como se tão simplesmente minha presença tivesse de ser aceita e meu sono tivesse de ser iniciado. Miro vista ao despertador e os números zero zero : um dois brilham num vermelho elétrico como a agitação que me toma. Deito feito quem obrigado está a fazê-lo e o corpo que não parece me pertencer afunda em chumbo sobre o colchão macio. Que que adianta se jogar em mim, pergunta a cama, se nem o travesseiro aguenta sua cabeça pesada de pensamentos. Finjo ter adormecido para precisar não responder, mas resposta tão óbvia já se encontra em batimento e respiração denunciantes de sonho acordado. Como se cada virada de corpo, peão que não sabe a qual casa ir, como se cada suspiro fugidio, vento vindo de boca farta de falar, gritasse em bom e alto som perante cada imóvel móvel do quarto, Olhem, camaradas, olhem como a existência me oxida, percebam a reação da vida, assistam-me enquanto morro. E o pior é que nem morrer consigo. Num estado de entre-lugar me mantenho como se acima houvesse o céu, abaixo o inferno, e o que me impedisse de cair em profundezas eternas fosse somente um fino fio de equilibrista a suportar meu peso com leve esperança de nunca arrebentar mas com fria certeza de logo se partir.

Num esfregar de olhos, solto baforada de indignação e inspiro bocado de impaciência. Acabada de ser acesa, a luz laranja da pequena luminária parece deixar todo meu quarto em âmbito falso de aconchego e comodidade. Ponho-me a sentar antes de saber que sentaria, abro mesma garrafa que há três dias se encontra ao lado da cama e bebo d’água tudo aquilo que talvez me fizesse apagar tal qual a luminária, que se não fossem meus dedos, diria ter se apagado sozinha. Leia um livro, sucede a cama, ou vá tomar um chá, talvez acalme a cabeça, Como se cabeça você tivesse pra saber disso, respondo-lhe de mau agrado. Ignorando o fato de que uma cama deu tal conselho, levanto-me novamente, desta vez sabendo do ato, e me dirijo à cozinha. Não me preocupo em acender luz alguma, vou de cômodo em cômodo em densa escuridão cujo grude tomou meus olhos há muito. O pequeno lume amarelo do fósforo que num chisque-chisque dá lugar à flama azulada do fogão, solta leve fumo branco para dentro de minhas narinas, e antes mesmo que qualquer bule dissesse saúde, um atchim poderoso sai-me da boca e sem muito esforço apago a fonte de calor que aqueceria meu chá, pondo-me, assim, na desistência imediata de tentar aquecê-lo novamente. Merda, exclamo ao vazio que zomba de mim.

Dirijo-me à sala a fim de achar em tão gigante estante de livros, solução maior ainda ao insuportável que me suporta. Iluminados apenas por fraco raio de lua recatada, meus olhos dançam lentos de livro em livro, sem necessariamente vê-los. Procuram desesperançados algo que distraia ou até mesmo divirta noite de tédio puro. Com certo atraso de segundos, meus dedos tentam acompanhar valentemente a valsa ocular, porém, por mais infeliz que seja, pendem em certos passos, bem nos momentos em que a vista passa a uma prateleira acima ou abaixo. Somente depois de muito tempo em baile rocambolesco entre vista e dedos, que posso perceber que havia checado a mesma fileira de livros por vezes inumeráveis. Merda, repito desta vez aos vários cadáveres que em minha estante vivem.

Parto em retorno ao meu quarto, e uma vez mais lá minha cama está, jaz parada em sua falsa promessa de conforto. Preciso dizer que te avisei, pergunta a cama, Me avisou do que, indago raivoso, Que a noite de hoje não tá pra sonhos não, Nem precisa dizer, percebi faz tempo já. Deito com força toda sobre o colchão como se uma cama sentisse dor suficiente para calar-se em silêncio de sono. Miro vista ao despertador e os números zero cinco : quatro cinco brilham em vermelho sangue feito mal agouro que me aguarda. Insuportável, suspiro, insuportável.

Eu só não pude perceber que me referia a mim.

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