Le Moulin

by Matheus Trunkle

I
O elevador se abre e vejo, alinhado simetricamente ao chão, um espelho partido de cima a baixo em dois. A linha fronteiriça é tênue, demarcadora porém suficiente apenas para me ver, alinhado simetricamente ao chão, partido de cima a baixo em dois. Augusto, Augusto, o duplo dividido diz chamando-me pelo segundo nome cujo som nunca ouvi da boca de ninguém, o moinho, Augusto, olha o moinho. Je pense que je dois partir, je lui réponds, il faut que je partes. O elevador se fecha e não sei se quem sobe sou eu ou o outro.

II
Foi talvez pelo som da chuva (ou do mar) que me lembrei do sonho da noite anterior: Um grande espelho se sustentava em minha frente e somente percebia que segurava uma tesoura quando começava a usá-la. Agarrava os cabelos em grandes e grossas mechas, cortando-as lentamente, sem preocupação ética ou estética, fosse necessário ouvir o som do romper de cada fio negro. Foi ao chegar num comprimento ideal que notava os fios brancos surgindo em minha cabeça. O tempo não passa nunca, o duplo dizia soltando a tesoura que eu ainda segurava com força, sou sempre o mesmo. Le temps n’attends personne, je disais, moi, je suis mon père et mon père, c’est moi. E os olhos que antes eram castanhos, clareavam num verde vagalumesco, completavam a metamorfose. Sobrevivo.

III
O moinho permanece em rotação, sozinho, na paisagem chiriquesca, diante do permanente pôr-do-sol que nunca se põe, provocando sombras sobre sombras. A minha é a única que se move pela tarde melancolia, laranja, marrom, seca tanto quanto estática pelo céu sem fundo. Caminho em caminho vertiginoso, complexo como o de Escher, perdendo-me sem saber sequer saída. Resta conhecer se há saída. Há, eu pergunto, Il y a, me respondem, il y a une île, une île inconnue, c’est là la sortie, c’est là la chance de l’essai, tu dois partir maintenant. Mais où est l’île, je me demande. Il n’y a pas d’endroit pour la retrouver.

IV
“Um moinho é uma instalação destinada à fragmentação ou pulverização de materiais em bruto, especificadamente grãos de trigo ou de outros cereais, por meio de mós. Há dois grandes grupos de moinhos tradicionais, que se classificam pela fonte da energia utilizada para fazer mover a mó: os moinhos de vento, que são todos aqueles moinhos que utilizam o vento como fonte de energia, a chamada ‘energia eólica’, e os moinhos de água, que são os que fazem uso da água corrente como fonte de energia (energia hidráulica). Além desses, também existem ou existiram moinhos movidos à tração animal ou à eletricidade. A tecnologia dos moinhos foi, por vezes, adaptada para fins bem diferentes dos originais. Na Holanda, por exemplo, o célebre moinho de vento foi, na maioria dos casos, utilizado para acionar bombas hidráulicas movidas a energia eólica, construídas para drenar a água das chuvas para o mar.  O termo ‘moinho’ deriva do latim molinum, de molo, que significa moer, triturar cereais ou dar à mó. O moinho de água apareceu no século II d. C. com os gregos e os romanos, que depois o espalharam pela Europa. Serviam, como bem indica a sua etimologia, para moer cereais e transformá-los em farinha. É um engenho muito simples e que foi utilizado durante praticamente dois milênios, permanecendo ainda em uso, embora tendencialmente decadente, no século XX.”

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