Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Month: February, 2013

Janelas

Da casa,
Depois da porta,
Dentre todos os possíveis orifícios
De saída ou
De entrada,
Vem sempre a janela.

Abro-a
Para entrar ou para sair?
Retângulo oblíquo deflorador
De intimidades. Como pode o meu modo de amar
Se esconder dos olhares úmidos de curiosidade?
A luz alaranjada do abajur quebradiço foge noite afora,
Janela afora,
Junto do ar quente
Emanado de nossos corpos
Em movimento.

Cada janela seria um íntimo,
Cada íntimo um grande universo,
Cada grande universo um pequeno quarto,
O nosso,
Cotidiano de esconderijo.
Qual o seu? Qual o meu? Haveria algo
– Limites –
Quando janelas se entrecruzam olhares?
Cara a cara,
Tête à tête,
Face to face,
Dia a dia,

Inevitavelmente

Abro-a
Para algo sair,
Mas o faço com a esperança e com
Intenção de que sempre algo entre,
Nem que seja o mormaço de uma manhã de verão.

Mas prefiro que ela seja aberta somente à noite:
Não me é suportável os calores
E me convém olhar as estrelas,
Nem que sejam somente cinco delas
Por entre os prédios e casas
Cujos moradores mantêm as janelas
Sempre fechadas.

Angústia

É daí
Talvez
Que venha meu segundo nome

Augusto

Como de Carlos o anjo torto ou
De Macbeth as feiticeiras ou
Quem sabe de Bentinho a fada
Juntos mas
Nenhum deles
Me disseram ao nascer:

– Vai, Carlos! ser gauche na vida!
– Salve, Macbeth! Ainda serás rei!
– Tu serás feliz, Bentinho; tu vais ser feliz.

Houve somente silêncio

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O silêncio
Das bocas que não
Ousam pronunciar meu segundo nome
Feito maldição ou mal iminente
Tanto quanto eminente
Por gerações e gerações
Hálito intermitente de felicidade
Esperada no desejo
De nada alcançar

Sem anjo
Nem feiticeiras
Tampouco fada
Foi em verdade
Este silêncio
Que disse a mim:
– Augusto, Augusto, tu serás fadado à Angústia!

E assim o foi.

Resta como rastro
Somente a espera
Dalguma porta se abrir
(ou quem sabe ela sempre esteve aberta)
(ou quem sabe ela foi feita para mim)
E então
Ter o poder de pegar o tabuleiro
E provocar a inversão do jogo
Das palavras
Dos corpos

Xeque!