Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Month: March, 2013

Para Uma Tendência

Esta reflexão enquanto ideia
(ou quem sabe enquanto sonho)
Me surgiu feito o mais suave tapa
Na cara
Ao assistir a um filme
Que tratava de filmes
E daquele que os fez
E daqueles que o fizeram
Afectos que afetam:

Moribundo, náufrago da vida
A ver vidas que percorrem,
Um homem surge ao observar da câmera
E observa, diante do olhar da máquina
E de todos que o assistiam, uma
……….Gaiola
E um passarinho dentro da
……….Gaiola
E sem ninguém esperar, na surpresa dum
Relâmpago, o náufrago abre a portinhola,
Única passagem de entrada e de saída,
Para estirar o braço e agarrar num
Estalo a frágil mecânica do passarinho

E observam-se ambos, observam-se muito
Os olhos náufragos demonstram à pequena criatura a escura tempestade
Da possibilidade de escolher a vida ou a morte, entre os dedos esvaindo-se
Por uma tensão de músculos palma fecha-se e vida voa fora
Deixando aquela mecânica frágil, cadáver que pena
Asas inúteis em ossos quebradiços ocos cheios de ar

Mas não
Embora seja escura a tempestade e mais ainda as profundezas
São estas as mais calmas enquanto as superfícies bravejam o marulho
O passarinho abismado foge do fogo ininteligível da liberdade
O náufrago no abismo mantém a mão aberta, observando
Aquela mecânica frágil fugitiva ao céu ser mais forte do que a dele
Sua mão permanece aberta à ideia de que é frágil tanto quanto o animal
E que foi necessário poder ter poder sobre outro senão ele
Para desfragilizar-se
Não há horizontalidade, somente núcleos detentores da escolha
Pois que o náufrago poderia ter apenas aberto a portinhola
E ter deixado o passarinho escapar

Mas não
Ele o agarrou
Ele o olhou nos olhos
Ele deixou claro o quanto podia matá-lo ali
Em sua palma da mão
Fazer dele um pasticho de carne sangue e penas
Assisti-lo sufocar-se por entre as paredes de dedos deformes
Enquanto debatia-se por entre o mínimo espaço que lhe era dado

Mas não
Ele o soltou
Ele abriu todos os dedos
Libertando-o de tudo que o prendia
Na verdade, ele foi liberto, mas não do medo
Que o acompanhará pelos céus o resto da vida

Esta é uma tendência da qual temos de fugir

Senão seremos nós
Tirando nós mesmo
De nossas próprias gaiolas
Para nos esmagarmos nos nossos próprios dedos
Afogados no nosso próprio sangue

Este é o único poder dado aos náufragos do mar vermelho

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Não Saber

Não saber do tempo me enoja
Maré torta de mar brabo me sobe à garganta
Feito barco náufrago rodopiante no meu estômago

Não saber das horas me deixa com náusea
De Sartre
Durmo de manhã para acordar não sei quando
À tarde? À noite? Noutro dia? Dez anos depois?
Coma súbito vírgula em vida cujo intervalo
(se,pa,ra)
As sobras do jantar de ontem

Não saber dos dias me faz vomitar
As sobras digeridas
Me dizem que devo comê-las
Novamente
Ruminação constante interminável
Que me tortura
Os dias passam
E ainda não consigo engolir
Aquela:

Coisa-ser
Orgânica como meu corpo
Pulsante como meu sexo
Mistura nojenta viva por séculos
E séculos assistindo os ratos
E os gatos animais diferentes
Por apenas duas letras
Se perseguirem uns aos outros
Quando na verdade fogem
De algo desconhecido
Desconhecido este que é nada
Senão eles mesmos
Correm ambos em círculos
Em volta do único e grande relógio
Que nos governa
…….nos ilumina
…….nos transforma
…….nos profana
…….nos metamorfoseia não nas baratas de Kafka
………………………….não nos porcos de Orwell
………………………….não nos ratos de Spiegelman
………………………….não nos gatos de Perrault

Mas sim nos animais que somos
Que negam a própria animalidade
Que afirmam a concretude dos séculos
E esquecem a importância dos vaga-lumes
Luzinhas mínimas que sobrevivem em meio ao próprio cemitério

Restos pegadas rastros
Vômito sangue sêmen
Lágrimas e manchas salgadas no tecido do tempo
Nada mais podemos deixar marcado
Senão pequenas partes de nós mesmos
Nunca nossa completude
Nunca todo inteiro sou
Posso ser todo em cada coisa
Posso pôr quanto sou no mínimo que faço
Mas a grandeza é ilusão
Pois se percebo que em cada lago
A lua toda brilha
É porque alta vive
E cá baixo estou

Fascismo

Pois
Para mim
Não há coisa melhor que
Lavar roupa

Domam-se palavras
Tal qual se lavam roupas

À mão
À força

Há de ter força e sabão em
Pó ou pedra, agentes purificadores
Removedores de manchas e rastros
De quaisquer traços que
Sejam impuros, imparciais ou impacientes

Há de ter paciência e amaciante
Líquido, perfume falso feito de tudo
Menos de lavanda ou
De rosas ou
De emoção ou
De bem estar
Tampouco de harmonia
E nem sequer aconchego

Há de ter desassossego e um bom varal
Ao sol, astro não mais importante
Quanto o serviço que presta:
Da água se faz umidade
Da umidade se faz vapor
Do vapor se faz deserto
Esturrique à luz calorenta até sobrar nada
Mais além do que tecidos
Limpos
Perfumados
Alvos

Mas, de nada vale esse processo todo
Se não houver antes outro processo ainda
Mais importante que qualquer coisa:
Há de ter sujeira, e muita

Pois
Para mim
Antes de lavar a roupa
Não há coisa melhor que
Sujá-la

Há de ter lama e poeira sobre
Molho de tomate em puro óleo
As cinzas do cigarro fumado
Às escondidas salpicando as manchas e
Traços de sangue e porra da última noite
De amor, suor suave do uso intermitente
De uma mesma camiseta ao longo do dia
Cuecas e bermudas molhadas do mesmo líquido
Pluvioso e úmido e corpo
Em repouso
Durante uma semana à espera do enchimento
Do cesto de roupas sujas

Simplesmente
Para mim
Não há coisa melhor que
Lavar roupa
Pois espero
Ansiosamente
Pelo retorno delas
Limpas
Puras
A fim de que as suje
Novamente
Ciclicamente
Pelos séculos sem fundo