Fascismo

by Matheus Trunkle

Pois
Para mim
Não há coisa melhor que
Lavar roupa

Domam-se palavras
Tal qual se lavam roupas

À mão
À força

Há de ter força e sabão em
Pó ou pedra, agentes purificadores
Removedores de manchas e rastros
De quaisquer traços que
Sejam impuros, imparciais ou impacientes

Há de ter paciência e amaciante
Líquido, perfume falso feito de tudo
Menos de lavanda ou
De rosas ou
De emoção ou
De bem estar
Tampouco de harmonia
E nem sequer aconchego

Há de ter desassossego e um bom varal
Ao sol, astro não mais importante
Quanto o serviço que presta:
Da água se faz umidade
Da umidade se faz vapor
Do vapor se faz deserto
Esturrique à luz calorenta até sobrar nada
Mais além do que tecidos
Limpos
Perfumados
Alvos

Mas, de nada vale esse processo todo
Se não houver antes outro processo ainda
Mais importante que qualquer coisa:
Há de ter sujeira, e muita

Pois
Para mim
Antes de lavar a roupa
Não há coisa melhor que
Sujá-la

Há de ter lama e poeira sobre
Molho de tomate em puro óleo
As cinzas do cigarro fumado
Às escondidas salpicando as manchas e
Traços de sangue e porra da última noite
De amor, suor suave do uso intermitente
De uma mesma camiseta ao longo do dia
Cuecas e bermudas molhadas do mesmo líquido
Pluvioso e úmido e corpo
Em repouso
Durante uma semana à espera do enchimento
Do cesto de roupas sujas

Simplesmente
Para mim
Não há coisa melhor que
Lavar roupa
Pois espero
Ansiosamente
Pelo retorno delas
Limpas
Puras
A fim de que as suje
Novamente
Ciclicamente
Pelos séculos sem fundo

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