Não Saber

by Matheus Trunkle

Não saber do tempo me enoja
Maré torta de mar brabo me sobe à garganta
Feito barco náufrago rodopiante no meu estômago

Não saber das horas me deixa com náusea
De Sartre
Durmo de manhã para acordar não sei quando
À tarde? À noite? Noutro dia? Dez anos depois?
Coma súbito vírgula em vida cujo intervalo
(se,pa,ra)
As sobras do jantar de ontem

Não saber dos dias me faz vomitar
As sobras digeridas
Me dizem que devo comê-las
Novamente
Ruminação constante interminável
Que me tortura
Os dias passam
E ainda não consigo engolir
Aquela:

Coisa-ser
Orgânica como meu corpo
Pulsante como meu sexo
Mistura nojenta viva por séculos
E séculos assistindo os ratos
E os gatos animais diferentes
Por apenas duas letras
Se perseguirem uns aos outros
Quando na verdade fogem
De algo desconhecido
Desconhecido este que é nada
Senão eles mesmos
Correm ambos em círculos
Em volta do único e grande relógio
Que nos governa
…….nos ilumina
…….nos transforma
…….nos profana
…….nos metamorfoseia não nas baratas de Kafka
………………………….não nos porcos de Orwell
………………………….não nos ratos de Spiegelman
………………………….não nos gatos de Perrault

Mas sim nos animais que somos
Que negam a própria animalidade
Que afirmam a concretude dos séculos
E esquecem a importância dos vaga-lumes
Luzinhas mínimas que sobrevivem em meio ao próprio cemitério

Restos pegadas rastros
Vômito sangue sêmen
Lágrimas e manchas salgadas no tecido do tempo
Nada mais podemos deixar marcado
Senão pequenas partes de nós mesmos
Nunca nossa completude
Nunca todo inteiro sou
Posso ser todo em cada coisa
Posso pôr quanto sou no mínimo que faço
Mas a grandeza é ilusão
Pois se percebo que em cada lago
A lua toda brilha
É porque alta vive
E cá baixo estou

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