Para Uma Tendência

by Matheus Trunkle

Esta reflexão enquanto ideia
(ou quem sabe enquanto sonho)
Me surgiu feito o mais suave tapa
Na cara
Ao assistir a um filme
Que tratava de filmes
E daquele que os fez
E daqueles que o fizeram
Afectos que afetam:

Moribundo, náufrago da vida
A ver vidas que percorrem,
Um homem surge ao observar da câmera
E observa, diante do olhar da máquina
E de todos que o assistiam, uma
……….Gaiola
E um passarinho dentro da
……….Gaiola
E sem ninguém esperar, na surpresa dum
Relâmpago, o náufrago abre a portinhola,
Única passagem de entrada e de saída,
Para estirar o braço e agarrar num
Estalo a frágil mecânica do passarinho

E observam-se ambos, observam-se muito
Os olhos náufragos demonstram à pequena criatura a escura tempestade
Da possibilidade de escolher a vida ou a morte, entre os dedos esvaindo-se
Por uma tensão de músculos palma fecha-se e vida voa fora
Deixando aquela mecânica frágil, cadáver que pena
Asas inúteis em ossos quebradiços ocos cheios de ar

Mas não
Embora seja escura a tempestade e mais ainda as profundezas
São estas as mais calmas enquanto as superfícies bravejam o marulho
O passarinho abismado foge do fogo ininteligível da liberdade
O náufrago no abismo mantém a mão aberta, observando
Aquela mecânica frágil fugitiva ao céu ser mais forte do que a dele
Sua mão permanece aberta à ideia de que é frágil tanto quanto o animal
E que foi necessário poder ter poder sobre outro senão ele
Para desfragilizar-se
Não há horizontalidade, somente núcleos detentores da escolha
Pois que o náufrago poderia ter apenas aberto a portinhola
E ter deixado o passarinho escapar

Mas não
Ele o agarrou
Ele o olhou nos olhos
Ele deixou claro o quanto podia matá-lo ali
Em sua palma da mão
Fazer dele um pasticho de carne sangue e penas
Assisti-lo sufocar-se por entre as paredes de dedos deformes
Enquanto debatia-se por entre o mínimo espaço que lhe era dado

Mas não
Ele o soltou
Ele abriu todos os dedos
Libertando-o de tudo que o prendia
Na verdade, ele foi liberto, mas não do medo
Que o acompanhará pelos céus o resto da vida

Esta é uma tendência da qual temos de fugir

Senão seremos nós
Tirando nós mesmo
De nossas próprias gaiolas
Para nos esmagarmos nos nossos próprios dedos
Afogados no nosso próprio sangue

Este é o único poder dado aos náufragos do mar vermelho

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