Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Month: April, 2013

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in memoriam A. C. R. L. 

És cordeiro
E morreste fora do sacrifício

Visitei tua tumba
Morada nova
Tristeza sempre

Seria coincidência se eu disser que
Comprei o livro de Lísias na mesma semana
Em que eu fiquei sabendo de tua fuga do abatedouro?

Preferiste morrer por ti somente
A sofrer em mãos alheias
Pois já sofreste tanto sem ao menos necessitar do esforço
…………………………………………………………ou
…………………………………………………………da
………………………………………………………..
forca

Foi difícil te encontrar em meio a tantas outras tumbas
Vidas outras inexistentes a mim
De tantas possibilidades procurava somente a tua
Tumba tão incompleta quanto tua vida curta
Corujas me observavam atentas cavaqueiras construindo moradas
Em meio a outras mortas
Só sei que me dei conta da presença dos animais
Após ter te encontrado
Os olhos-âmbar se tornaram presentes

Foste cordeiro
E morreste fora do sacrifício
És agora três números, terra seca e cimento trôpego
Não deixei nada a ti, nem sequer flores, não pude
Deixar algo lá, ao léu, seria te esquecer naquela terra de mortos
Pois sei que deixando uma parte de mim contigo, deixará de existir
A responsabilidade de lembrar de ti e nunca te esquecer
Pois Camus mesmo já disse o quão importante é lembrar de ti
E de qualquer outro cordeiro que tenha fugido do abate
Pois nunca se saberá o que eles queriam afinal
O que buscavam
O que repudiavam
O que amavam
Sobrou a mim, meu caro, somente tua ausência como resposta
A tantas infinitas perguntas que nunca serão respondidas

Agnus Dei,
O céu é seu.

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Do Banheiro Dum Ônibus

Quem sabe o que aconteceu?
Na verdade, não se sabe por que ele esqueceu
A tranca poderia estar muito bem trancada firme
Forte, impossível de outro entrar
Mas não estava, frágil tanto quanto ele era a tranca
Aberta, escancarada como o coração

Ela pegou na maçaneta e puxou a porta
Sem saber qual cena a esperaria por lá
Exceto a certeza de encontrar vazia a cabine
Mas não estava, de todas as possibilidades
Críveis num horizonte de expectativas
Aquela era a mais improvável
Poderia estar lá um homem ou mulher
A cagar
A mijar
A lavar
A secar
A foder até
Mas não, ele estava chorando
E a única reação dela foi observar fugaz
(assustada)
E antes de fechar de tudo a porta
Ela a abriu novamente para se assegurar
(apenas numa frestinha)
De que eu estava chorando
Se assegurar da minha fraqueza num lugar
Onde não convinha tal sentimento
E só então ela fechou a porta delicada
Suave como se fosse necessário à situação

Tranquei a porta como se trancasse os olhos
Lavei o rosto despistando o traço da tristeza
E saí do banheiro
Nos olhamos nos olhos, eu e ela
E era como se nada tivesse acontecido
Ela entrou no banheiro e trancou a porta
Atrás de mim
Trancando também o frágil momento
Atrás de mim
Segredo negro como a noite que passava rápida pela paisagem

Ninguém sabe o que aconteceu
Com a exceção de uma pessoa

E não era ela.