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by Matheus Trunkle

in memoriam A. C. R. L. 

És cordeiro
E morreste fora do sacrifício

Visitei tua tumba
Morada nova
Tristeza sempre

Seria coincidência se eu disser que
Comprei o livro de Lísias na mesma semana
Em que eu fiquei sabendo de tua fuga do abatedouro?

Preferiste morrer por ti somente
A sofrer em mãos alheias
Pois já sofreste tanto sem ao menos necessitar do esforço
…………………………………………………………ou
…………………………………………………………da
………………………………………………………..
forca

Foi difícil te encontrar em meio a tantas outras tumbas
Vidas outras inexistentes a mim
De tantas possibilidades procurava somente a tua
Tumba tão incompleta quanto tua vida curta
Corujas me observavam atentas cavaqueiras construindo moradas
Em meio a outras mortas
Só sei que me dei conta da presença dos animais
Após ter te encontrado
Os olhos-âmbar se tornaram presentes

Foste cordeiro
E morreste fora do sacrifício
És agora três números, terra seca e cimento trôpego
Não deixei nada a ti, nem sequer flores, não pude
Deixar algo lá, ao léu, seria te esquecer naquela terra de mortos
Pois sei que deixando uma parte de mim contigo, deixará de existir
A responsabilidade de lembrar de ti e nunca te esquecer
Pois Camus mesmo já disse o quão importante é lembrar de ti
E de qualquer outro cordeiro que tenha fugido do abate
Pois nunca se saberá o que eles queriam afinal
O que buscavam
O que repudiavam
O que amavam
Sobrou a mim, meu caro, somente tua ausência como resposta
A tantas infinitas perguntas que nunca serão respondidas

Agnus Dei,
O céu é seu.

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