Náufragos Do Mar Vermelho

Na verdade, isso é um começo. Nunca antes me dirigi diretamente àquele que lê esse meu mundo virtual. Mas necessito, pois que isso é um começo. Na minha segunda tentativa em escrever um romance, ficção da prosa, sinto que desanimei em tal função. Permaneci por muito tempo na lírica, jogo de palavras difícil porém leve, brincalhão, catártico, no qual eu podia e posso transcender aquilo que vivo e penso. Talvez soe romântico, mas a literatura é, não só para mim, um tábua em meio ao mar, e é nela que me seguro, e é dela que faço em suor outras tábuas para outros se segurarem. Ao menos, é isso que espero: que outros possam se salvar do mar em fúria nas tábuas tão rústicas de mim. E depois de muito desânimo, me levanto do chão, graças a leituras e a livros e a amigos, pirilampos estes que permanecem brilhando enquanto sei que todo o resto se apaga. Logo, obrigado vocês que sabem que são vocês, pois se lhes serve a carapuça, não há saci que se segure.
Uma força veio e espero que seja para ficar. Não me importa mais no que vai dar esse meu impulso de escrita, só sei que o que importa  é que continuarei a escrever, a alguém. Portanto, aqui vai, isso é um projeto, isso é um começo, isso é para você.

M. A.

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            Benjamin disse uma vez que o analfabeto do futuro será aquele que não souber ler imagens, não souber fotografar, e não aquele que não souber escrever. Nunca entendi ao certo o que ele quis dizer com isso. Na verdade, não sei o porquê de ele ter escrito uma coisa dessas e tampouco sei por que eu a li. Leio por ler. Sou um leitor passivo. Minha estante se encontra apinhada de livros que não me dizem respeito, nada ali me convém. Leio-os e só vejo o vazio de letras ao lado de letras e os intermitentes espaços em branco entre elas. O número de livros lidos é bem menor se comparado ao número de livros deixados de lado, incompletos, sem vida. Devo dizer que no começo sentia certa pena, para não dizer arrependimento, mas atualmente sinto nada, nem remorso. Ao perceber que aquela ou essa leitura não vai muito longe, logo fecho o livro e jogo-o em um canto qualquer, de preferência um canto às sombras, talvez debaixo da cama, pois não ver mais aquela capa dura de náuseas facilita a ausência de futuros sentimentos. Então, me dirijo à sala: agarro o controle remoto e ligo a televisão. Prefiro assistir à tevê com todas as luzes apagadas; no completo escuro seria senão fosse por aquela tela tão iluminada pela própria luz, uma luz profana, como disse também, uma vez, Benjamin. Creio, porém, que ele não estava se referindo a televisões.

            Mas eu disse profana, dizendo de Benjamin em sequência, pois é apenas esta palavra que me vem à cabeça quando ligo a tevê: profanação. Sou jogado em um torpor sem fim, letargia infinita e pesada que me prende onde quer que eu esteja. O sofá se torna minha cama e as idas à cozinha e ao banheiro são intervalos rápidos para satisfazer minhas necessidades mais básicas.

            Pois que então começo. Posso dizer que ela, a tevê, está ligada, mesmo estando com o som desligado, em outro cômodo, por apenas perceber um leve zunido no ar, uma linha estática de energia percorrendo todo o ambiente. É impossível não sentir a força daquilo que passa em seu interior: embora saiba que seus membros são tão reais quanto o gigantesco número de livros que li na vida, aquela família que consome aquela margarina parece tão feliz, o marido abraça a esposa enquanto ambos observam sua prole cujos estômagos parecem receber apenas aquela margarina tão amarela quanto o sol que brilha na janela de manhã, são todos saudáveis e sentem um amor incondicional entre si, e é isso que importa, afinal, eles são usuários assíduos daquela margarina, antes mesmo que possa perceber a abrupta mudança, jovens surgem felizes, bebendo aquele refrigerante, aos montes, devem ser primos distantes, quem sabe de terceiro grau, daquelas crianças que só comem aquela margarina, pois também são saudáveis e alegres, além de serem descolados e modernos, sabem o que fazem e fazem o que querem, a batida da música ao fundo é tão alta ao ponto de me forçar a abaixar o volume da tevê, ah, aquele supermercado aqui do lado de casa está com promoções, e é só amanhã, arroz cinco quilos, sete e vinte e cinco, feijão preto o quilo, um e sessenta e sete, café quinhentos gramas, três e quarenta e oito, ovo a dúzia, três e quarenta e nove, sabão em pó meio quilo, quatro e noventa e oito, amaciante de roupas um litro, dois e noventa e nove, detergente, apenas setenta e nove centavos, lagarto o quilo, sete e noventa e cinco, filé de peito de frango, cinco e noventa e oito o quilo, uma mulher me olha, profundamente, e me explica, demonstrando sua bela pele de veludo, branca, europeia, como o tempo pode causar danos à pele feminina, entretanto, ela conseguiu retardar tais efeitos apenas utilizando aquele rejuvenescedor daquela companhia cosmética, e então, se é mais jovem por muito mais tempo, estoura da tela aquela cerveja suada, sexy tanto quanto aquela mulher, não a daquele rejuvenescedor daquela companhia cosmética, é outra, é loira, é magra, é bonita, é bronzeada pelo sol do verão, talvez por aquele mesmo sol que iluminava aquela família que usava aquela margarina, ela pega aquela cerveja e a bebe, sedenta e sedutora, uma luxúria que transborda dos olhares dos homens que ficam ao seu redor, na praia, sem camisa, com o peito definido e suado, também bronzeados e belos, gostosos, apenas observando aquele corpo de sexo, e uma ereção me surge por entre as pernas, sem saber ao certo qual é o meu objeto obscuro de desejo, escondo-a, por fim, sob uma almofada, envergonhado, e mais mulheres pululam, estão todas sentadas num auditório, cada uma com um crachá, enumerando-as, fossem gado a espera dos homens que surgirão, pois são solteiras, livres, e buscam um relacionamento sério, e feito aquelas promoções daquele supermercado aqui perto de casa, surgem os homens que, um após o outro, mostram aquilo que melhor sabem fazer, pretendentes em vitrines, apelando quase pelados, com ou sem pelos, devem ser os mesmos daquela propaganda daquela cerveja, seus músculos se movimentam numa dança hipnótica, e não posso evitar o aumento de minha ereção, mais uma vez envergonhado, culpado, não há almofada que esconda ambos os fatos, um não posso ignorar, o outro finjo que não existe, e corro ao banheiro para fazer o que tem de ser feito, volto, aliviado, a fim de continuar meu ritual, e percebo que o jornal já começou, corro novamente, desta vez à cozinha, para pegar algo comestível o suficiente para me manter imóvel nas próximas duas horas em frente à tevê, encho um copo com aquele refrigerante, passo aquela margarina amarela num pão qualquer, e levo comigo uma latinha daquela cerveja, tudo comprado naquele supermercado aqui perto de casa, sento ao sofá e percebo que o jornal já passa da metade e que a noite ainda nem começou, como e bebo tranquilo quando vem da tela iluminada um brilho vermelho e o apresentador diz de uma massacre de baleias em algum lugar da Dinamarca, pescadores com seus barcos e lanchas as encurralam numa pequena praia, forçando-as a encalharem na areia, os corpos negros e compridos, brilhantes, pesados, lisos pelo sal marinho, debatem-se em desespero enquanto são degoladas por facas e ganchos, as barbatanas chapinham na água que aos poucos é substituída por apenas sangue, muito sangue, as baleias sangram sem cessar, e as baleias se afogam no próprio sangue, e os pescadores se banham no sangue das baleias, e todas são mortas, cortadas, penetradas, presas na própria incapacidade de sobreviver fora d’água, o mar vermelho cresce no meio tempo em que os cadáveres são retirados à terra firme, uma maresia braba me toma feito o gancho que perfura aquela pele negra e boto para fora tudo o que tinha acabado de comer, sinto o vômito quente subir goela à cima, indo parar ele todo no chão da sala, assisto-me arfando ao tapete, iluminado pela profanação, e não posso evitar de notar a semelhança de meu vômito às tripas que escapam do ventre das baleias, levanto-me enxugando quaisquer resquícios de ânsia da boca e deito ao sofá, adormeço e sinto que sonho, debatendo minhas nadadeiras aos movimentos descendentes dos ganchos que me içam e me abatem em carne negra. A tevê ainda estava ligada quando acordei de manhã e o vômito já tinha se aderido ao tapete da sala.

  

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