Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Month: July, 2013

Vozes

Abro a boca
E já me sinto acuado
Diante do mundo de bocas
Que lançaram vozes ao mundo
Antes mesmo da minha voz e do meu mundo

Fecho a boca
E prefiro ir dormir
Às vezes o ruído é
Insuportável

Na verdade
Temo o fracasso
Da minha voz rouca

Ronco.

Algo

Às vezes
É necessário se afastar
De outros

Pois que
São tantas as vozes do lado
De fora

Que então
A do lado de dentro fica
De lado

A surdez é confusa quando vozes forçam o mudo a falar.

Exploração

Sou a criança
Infante nascituro
Realidade ainda por fazer

Meu mundo é aquilo que alcanço
Construo-o com as ferramentas
Que me foram dadas
Inutensílios de fruição

Eu descubro
Você eu conheço
Você eu reconheço
Você eu assimilo
Você eu como
Você surge

Te boto na boca e busco
Chupo e puxo
Mordo e durmo
Na pele o dente
No pelo a língua
Te tateio na cegueira do meu mundo
Em meio a dedos e suas pontas de dedos
E o seu arrepiar se torna o meu
Fluxo e extensão de meu corpo que é você

Desejo nunca amadurecer
Para sempre descobrir
Literatura a desvelar

Me surpreendo de você
E isso é bom.

Colapso

Meu lapso discursivo
Surge quando eu digo:
– Eu quero que
Morremos
Todos
Nós, porém

O lapso discursivo dele é outro
O eco ressurge do mais profundo

Mar que corrói a parede gasta
Pelo tempo e pela maresia cruel

Ele retoma o discurso utilizado por nós
E adiciona raiva & remorso & rotatividade

São nossas vozes roucas na dele agora potente
E nossa força fraca na dele agora sem controle

Pois que ele aponta & diz & mostra
O quanto todos nós falhamos nele (para com ele)

Esperança não há, desespero, aí sim
Aos poucos vão as forças, felicidade vã

E resta a carcaça da baleia morta, encalhada à praia
Vazia, somente a estrutura que ajudamos a construir

O interior, aquilo que importava, perdemos, talvez
Olho nos seus olhos e percebo a escuridão minha

Perdendo-se na escuridão dele, mais densa e bruta
Sombra irmã na vida e afetiva nas trevas, coração selvagem

Meu lapso discursivo
Surge quando eu digo:
– Eu quero que
Afogamos
Todos
Nós
No colapso dele
Nas nossas escolhas

Te te(a)mo, irmão.