Ao ciborgue de Haraway

by Matheus Trunkle

           Em um primeiro momento, me contenho. O peso daquilo que carrego é um lembrete do que devo ou não falar, me manifestar nas devidas linhas, escrever da construção de séculos e também da que agora se faz. Fala-se de um tempo, a partir de uma língua, em conseguinte de um indivíduo, cuja individualidade faz parte de um todo. Roland Barthes uma vez disse da própria tentativa de usar sempre a ambiguidade das palavras, as suas duas faces, e tento perceber onde eu me começo e onde me findo. Embora eu saiba, há tempos, que minhas escolhas de leituras são vindas de homens, ainda me surpreendo, decepcionado e espantado.

            Donna Haraway, em seu Manifesto ciborgue, propõe a evocação desse ser instigante. Ser do hibridismo, o robô humano, figura de uma ficção degradada mas ao mesmo tempo pop, é posto em seu ensaio-manifesto como uma ontologia, determinando, assim, a sua política; sendo esta irônica e “fiel ao feminismo, ao socialismo e ao materialismo”. É interessante notar que ao se utilizar de tais discursos e, inclusive, da imagem ciborguiana, tudo se dá em uma certa distância daquilo que se diz e acredita, pois é necessário lembrar que Haraway faz uso da ironia e da blasfêmia, ambas como forma de devir político. Portanto, ao mesmo tempo em que se coloca em jogo o Ciborgue com todo o seu peso, junto de discursos já fortemente construídos como o feminismo e o marxismo, aponta-se ao fato de que serão sempre discursos os seres a nos povoar.

            Há no corpo do Ciborgue (corpo este habitado por partes várias e moldado por mãos muitas) a possibilidade de vida (ou de morte) genericamente livre, gênero em dinamismo constante, castração maldita mas prazerosa, que lhe dá caminhos. Embora pareça simples seu funcionamento, haveria como descobrir, definitivamente, a natureza do ser, deste ser? Como se daria o Ciborgue, essa criatura sem criador uno, vinda de duplos fundos, caricatura de si mesma mergulhada em ironia? “A ficção contemporânea está cheia de ciborgues”, diz Haraway, assim como na medicina moderna. Criaturas simultaneamente animais e máquinas, junções monstruosas que são, de extrema forma ambígua, tanto naturais quanto fabricadas. Pois será ali que surgirá o prazer do Ciborgue, em sua confusão sem fim, mas junto dela virá também a responsabilidade de sua construção consciente. O cultural e o natural se perdem no mapa ciborguiano, mapa este feito de carne, sangue, metal e ferrugem; mapa este, como diz Haraway, “comprometido com a parcialidade, a ironia e a perversidade, ele é oposicionista, utópico e nada inocente.” Assim, o Ciborgue é uma figura de quebra de fronteiras: ele é a cultura, o natural, e ao mesmo tempo nenhum deles; o feminino e o masculino são dois padrões que o regem, mas também não tem qualquer compromisso com a bissexualidade, pois ele é uma criatura de um mundo pós-gênero. Com o Ciborgue, não há verticalidade de poderes, somente horizontalidades, feito um mapa, e a hierarquia totalizante é apenas mito, assim como ele mesmo. Não há como voltar ao pó, às origens, o Ciborgue não deseja tal caminho, pois não há como conhecer a verdade de sua criação ou a existência de seu criador. “O principal problema com os ciborgues, é, obviamente, que eles são filhos ilegítimos do militarismo e do capitalismo patriarcal […] Mas os filhos ilegítimos são, com frequência, extremamente infiéis às suas origens. Seus pais são, afinal, dispensáveis.” Portanto, não havendo ligação filial, Haraway propõe outro tipo de contato: a afinidade, ou melhor, a avidez por afinidade. Pois que as identidades se encontram fraturadas e nada existe no fato de ser “mulher”, por exemplo, que naturalmente una as mulheres, ou os homens, ou seja lá qual for o tipo de grupo dito “identitário”.

            Embora pareça levar a uma certa relatividade, ou até mesmo a uma utopia, tendo a crer na existência dos Ciborgues, e levanta-se aqui, das tumbas mais monstruosas, os clichês mais hilários, produtores de risadas nervosas. Pois ser ciborgue é ter responsabilidade, pôr-se em questões, sempre, auto avaliação para admiração das peças metálicas em meio aos pedaços de pele solitários, ver-se monstro e gostar do que vê, ao mesmo tempo em que, ironicamente, grita de medo e de susto. Aproprio-me daquilo que me interessa.

link para download do Manifesto Ciborgue de Donna Haraway em português: 

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=2&cad=rja&ved=0CDoQFjAB&url=https%3A%2F%2Fwe.riseup.net%2Fassets%2F128240%2Fantropologia%2520do%2520ciborgue.pdf&ei=fAUmUp61EI-r4AOu5YG4DQ&usg=AFQjCNElyvj3g6oRUU8sYdD26xsItsep-A&sig2=1NmSGfTMzNaTyohp0pRegQ&bvm=bv.51495398,d.dmg

E no original:

http://www.faculty.umb.edu/gary_zabel/Courses/Art%20and%20Philosophy%20in%20SL%20and%20Other%20Virtual%20Worlds/Texts/cyborg_manifesto.pdf

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