Breve Diário De Afeto

by Matheus Trunkle

Taboão da Serra, São Paulo. 25 de julho de 2012. 

Me entristece pensar que esta escritura começará a partir de tua ausência. E a tristeza me é ainda maior ao perceber que, assim como o começo, o fim deste diário será diante de tua ausência novamente. Mal sei como posso com isso. Creio que ainda prefiro ignorar a sua iminente partida e viver o que posso, com você, como se partidas não existissem. E devo dizer que quando falo de partidas (e não falo a partir dum lugar de novato, calouro, ingênuo em dizer olá para logo chorar adeus), sou até que bem experiente. Vivi infância assim, de lado a outro, como se de terra, ao fato, não pertencesse a nenhuma. Nasci em cidade onde os trens nunca pararam de passar. O barulho das rodas de metal sobre os trilhos me acompanha até hoje, feito prelúdio de minhas constantes e possíveis peregrinações. Lorena é o nome da cidade dos trens, e foi de lá que comecei, o meu ponto de partida. Nascido no interior, mal fui de lá e, para alegria de minha autoficção às avessas, me mudei a São Paulo, esta pauliceia desvairada que tanto me moldou o corpo. Passei tempo bom lá por um bom tempo, mas quando menos esperei, minha vida voltou à cidade natal, e por lá a mantive. Penso que o sangue cigano corre perpendicular às minhas veias, o modo itinerante é coisa de família. Feito tradição que perpassa geração, pois o mesmo me ocorreu a fazer, minhas irmãs saíram de casa por demais novas. Mete-se cara ao mundo e assim seja o que der e vier. Fôlego inquieto de S. cessou devido aos deveres deveras maternos, mas o de N. ainda continua forte. Nem me atrevo a registrar aqui o país no qual ela e o marido se encontram, pois, creio eu que, mais cedo ou mais tarde, será apenas mais um passado no histórico itinerário deles. Era muito novo quando ambas saíram de casa, em conseguinte, as visitava muito nas férias escolares, e posso dizer com clareza de cada momento em que, chorando, me despedi delas. Entende agora o porquê da minha experiência de partidas? O adeus sempre foi signo constante em minha linguagem.

Taboão da Serra, São Paulo. 27 de julho de 2012.

Pareço organizado, mas somente pareço. Meu objetivo principal com este diário era (re)colocar você em dia, diariamente, dos dias que se passaram, que passamos juntos, ou seja, para que isso pudesse acontecer, ao final de cada dia (sem exceções), eu deveria desassossegar mente e pena, escrevendo, assim, aquilo que me ou nos passou. Mas, levando-se em conta minha incrível arte procrastinatória, e com isto sou nada mais que sincero, deve-se logo imaginar aonde anda meu objetivo principal: a lugar nenhum. Usando a técnica de Aira e tentando consertar o desconcerto sem mexer naquilo que já foi escrito, devo parar por aqui e dizer que não me encontro em Taboão da Serra e nem em São Paulo. Tampouco é o vigésimo sétimo dia do mês de julho e nem sequer estamos perto de tal data.

Portanto, devido a erratas de data, tempo, lugar, e até mesmo de história, pois imagine se errassem ao registrar o ano (ou o país!) no qual a Revolução Francesa aconteceu, paro por aqui para um novo e exato dia começar. É o tempo que nos molda.

Niterói, Rio de Janeiro. 7 de setembro de 2012. 

Você agora dorme. Já passam das duas da manhã e posso ouvir o silêncio que você provoca em mim, um inquietante zunido de constante irrigação sonora. Sim, eu sinto sono. Sim, eu sinto amor.

Niterói, Rio de Janeiro. 16 de setembro de 2012. 

Engraçado como se passam os dias. Não tenho mais a capacidade de discernir o que seja meu e o que seja seu. Creio que isso se reflita no aspecto de nosso quarto: roupas e livros e itens diversos todos num mesmo círculo de afeto. Nossas memórias e lembranças do dia tanto se acumulam em nossa cama quanto em nossa mente, e assim escrevo esta narrativa. Mas devo lembrar, e para isso relembrarei Barthes quando diz que quem aqui fala é ninguém mais que um personagem de romance, que tudo que essas folhas registram é matéria literária, é senão uma grande operação que acontece na folha, na minha vida. E o que sobra, os restos e rastros, é talvez esta escritura, essa linha de tecido que forma meu pensamento.

Niterói, Rio de Janeiro. 25 de janeiro de 2013. 

 É engraçado pensar o quanto de tempo que se passou sem eu escrever uma palavra sequer, não levando em conta, é claro, meus poemas. Minhas escrituras se tornaram mínimas, fugazes e ligeiras, diante do poder que minha vida tomou de meu corpo. Não me surpreenderá se qualquer relato aqui não mais for relatado e sobrar somente os poemas, pescas de meu dia-a-dia, ordinárias palavras que me restam para ocupar meu passatempo de tédio. Ao mesmo momento são elas que me mantém ao chão, sólidas tanto quanto pedras.

É engraçado notar como minha capacidade noturna de sonhar se tornou quase nula. Desde minha mudança para Niterói, meus sonhos e pesadelos se puseram em pó, imóveis, inativos. Não sei ao certo por quê. Sinto que estou tão irreversivelmente material, na vida, posto em ação, que logo não há mais o que fazer ao dormir senão dormir. Estou para a vida assim como a chuva está para o mar.

Quando ainda morava no Grajaú, sozinho (fato este nem um pouco fácil de esquecer), meus sonos eram agitados e inconstantes. Como se, perante minha extrema solidão, minha única interação possível com o mundo não fosse por ele, e sim num lugar indefinível, nem cá nem ali. Isso quando me era permitido dormir, pois as noites insones eram uma constante.

Niterói, Rio de Janeiro. 28 de janeiro de 2013. 

O medo é um fator paralisante. Assim como a esperança. Tenho medo de esperar, portanto, espero não ter medo, como consequência acabo tendo esperança de algo. É um beco sem saída.

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