Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Month: April, 2014

Mandíbulas

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Quando criança sonhava
Tubarões subterrâneos

Suas barbatanas cortavam o solo
Lâmina cega e ereta surgindo do chão
Sobre o qual jazia minha cama
Sobre a qual jazia dormindo

Ai
Se meu pé se encostasse ao chão
Numa mordida eu seria puxado
Profundo
A um mundo de infinitos mundos
Estômago de peixe grande que admiro tanto

Pois quando criança sonhava
Em ser tubarão

Quem sabe se engolido por um
Não faça me tornar em outro
Pegar do animal a força
Que nunca possuí

Só me resta sonhar outra vez
O mar negro no qual nado
E observo
O grande branco sutil se aproximar
Faminto
E abraço sua mandíbula

Como se fôssemos conhecidos
De séculos

Assimilados

Vagalume

São vagalumes, penso, mas não exatamente. Cheguei a falar em voz alta, talvez, pois ele logo grita um o que, para logo eu sussurrar um não é nada, dando, então, continuação ao que fazíamos. Todos os prédios à noite, são lindos eles, penso: em espaços intercalados, são pequenas luzes sempre acesas por toda a madrugada, sem exceção, na calada da cidade. Calada, gostosa. Pensamento é eco, abstração como forma de fuga. Exceção. É incrível como consigo manter meu corpo insensível, opaco e empacado, nem ao menos translúcido. Não sou lúcida e nunca fui. Sou vagalume. Sua vagabunda. Ouço um tapa antes mesmo de senti-lo no rosto, e meu olho desfecha nervoso, pisca-pisca de árvore de natal, rápido, reação involuntária porém precisa e sincronizada. Enervamento, palavra interessante de se usar. Minha irmã costumava ler o dicionário, página por página, pacientemente, palavras soltas que, no ar, feito borboletas ou quem sabe pirilampos, catava ávida. Antes de morrer, por conta de um câncer na garganta, ficou um ano sem poder falar, mudinha, garganta inútil ao uso, inutensílio raso, raspado, tantas palavras trancadas de volta ao dicionário, completo desperdício de tempo foi esse. Um tumor. Você é um desperdício de tempo de dinheiro de espaço de corpo. Sua vadia. De alguma forma, meu corpo é posto de bruços, manipulado. Minha bochecha sente o travesseiro molhado de saliva e suor, nenhum deles meus. Talvez dele, ou de qualquer outra que ele tenha trazido aqui enquanto eu estava fora. Insaciável. Insalubre. Insuportável. Insensível. Feito meu corpo, falo, mas não exatamente. Chupa minha pica. Não preciso da boca para falar, nunca precisei, nem para pensar. É de família, minha irmã não precisou falar por um ano. Ou talvez precisasse, mas nunca pôde dizer isso a qualquer um. Só morreu. E não é a toa que, apesar de tudo que ele faz, fico fascinada com todas as pintas de seus braços e pernas. Delícia. Sua puta. São vagalumes, penso, mas não exatamente. Talvez vagalumes em negativo, negros, constelação escura, imprecisa em meio a um infinito claro e branco, doentio e nojento. Leite eu odeio. Azedo. Ele fede. Quase coloco para fora minha janta. Que boquinha gostosa. Apertadinha que nem sua buceta. Mas o movimento é outro. É para dentro. E engulo, forçada.
Sou jogada ao chão com mais um tapa.
Sou vagalume e sobrevivo, toda noite.
Efêmera suicida.

Suo

Em bicas
Essa é a verdade
Tão fedorenta que prefiro
Escrever a falar

Pode soar estranho
Mas suo como sangue
Escorrendo em pele
E pelo pela pele
Grudenta e quente

Sou destruído em qualquer ato
Perco força e canso
De vida
Mas chato é quando percebo
Que perdi minhas roupas
E minha poesia
Para a corrosão do suor
E a ferrugem da língua

Mas não seria
Este gosto de sangue
Mas não seria
Eu estar nu, aqui, junto a você

O fato de eu estar vivo?

Moro pelos polos
Morro pelos poros
Desde criança
Assim
Toda noite

Molhado como sempre, preocupada
Minha mãe me levava ao hospital
É normal, dizia o médico,
Este menino será grande

Grande?
Que suem as cinco badaladas
Que soe todo meu corpo