Vagalume

by Matheus Trunkle

São vagalumes, penso, mas não exatamente. Cheguei a falar em voz alta, talvez, pois ele logo grita um o que, para logo eu sussurrar um não é nada, dando, então, continuação ao que fazíamos. Todos os prédios à noite, são lindos eles, penso: em espaços intercalados, são pequenas luzes sempre acesas por toda a madrugada, sem exceção, na calada da cidade. Calada, gostosa. Pensamento é eco, abstração como forma de fuga. Exceção. É incrível como consigo manter meu corpo insensível, opaco e empacado, nem ao menos translúcido. Não sou lúcida e nunca fui. Sou vagalume. Sua vagabunda. Ouço um tapa antes mesmo de senti-lo no rosto, e meu olho desfecha nervoso, pisca-pisca de árvore de natal, rápido, reação involuntária porém precisa e sincronizada. Enervamento, palavra interessante de se usar. Minha irmã costumava ler o dicionário, página por página, pacientemente, palavras soltas que, no ar, feito borboletas ou quem sabe pirilampos, catava ávida. Antes de morrer, por conta de um câncer na garganta, ficou um ano sem poder falar, mudinha, garganta inútil ao uso, inutensílio raso, raspado, tantas palavras trancadas de volta ao dicionário, completo desperdício de tempo foi esse. Um tumor. Você é um desperdício de tempo de dinheiro de espaço de corpo. Sua vadia. De alguma forma, meu corpo é posto de bruços, manipulado. Minha bochecha sente o travesseiro molhado de saliva e suor, nenhum deles meus. Talvez dele, ou de qualquer outra que ele tenha trazido aqui enquanto eu estava fora. Insaciável. Insalubre. Insuportável. Insensível. Feito meu corpo, falo, mas não exatamente. Chupa minha pica. Não preciso da boca para falar, nunca precisei, nem para pensar. É de família, minha irmã não precisou falar por um ano. Ou talvez precisasse, mas nunca pôde dizer isso a qualquer um. Só morreu. E não é a toa que, apesar de tudo que ele faz, fico fascinada com todas as pintas de seus braços e pernas. Delícia. Sua puta. São vagalumes, penso, mas não exatamente. Talvez vagalumes em negativo, negros, constelação escura, imprecisa em meio a um infinito claro e branco, doentio e nojento. Leite eu odeio. Azedo. Ele fede. Quase coloco para fora minha janta. Que boquinha gostosa. Apertadinha que nem sua buceta. Mas o movimento é outro. É para dentro. E engulo, forçada.
Sou jogada ao chão com mais um tapa.
Sou vagalume e sobrevivo, toda noite.
Efêmera suicida.

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