Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Month: January, 2015

A Secura É Rude

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Reveste perfeita
A pele grossa
De sol
A gosto no rosto
O sal
Não do mar mas
Do suor
Que dói ao sair
Dando luz ao fogo
Há tempos fátuo

Um brilho na noite
Clara que revela precipitações
Do abismo que escorre pelos meus dedos
Como cola permanente

Eu devo chorar?
Nunca

Pois se caso faça
E leve as mãos ao rosto
Elas se grudarão tapando minha visão
E minha única paisagem
Será o escuro de uma casa vazia

Cri-me

Francisco-de-Goya-The-Tribunal-of-the-Inquisition

Houve tempos
Em que acreditava
Em poesias

Do mais raso abismo
Retirava palavras
Inertes amargas
Gozando-as

A crise foi se render
Ao crime da crença
Absoluta
E me abismar com o vácuo
Dissoluto

Criado: sem ar nem mar longe tanto de qualquer arma para defesa pessoal com medo profundo das vozes dos corais mortos cinzas ocos coxos como minha vontade de álibi que me arrasta fleumático pela bílis negra da compreensão cega porém sábia da escuridão que cresce em mim indelével leve sorrateira criatura viscosa que nunca me largará não importa com quem ou onde quer que eu esteja

O que faço quando
Desconfio do que escrevo?

Agrafia dos séculos,
Sou culpado.