Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Month: May, 2015

Vagalumes do Mal

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“Vagalume vem-vem
Teu pai tá aqui
Tua mãe também”

Vozes no escuro da infância repetem
O ciclo da busca por luzes orgânicas
Que piscam e ascendem à noite
Ao céu como lembrança na névoa
Como a fumaça de cigarro do meu pai
Que aceso fingia ser aquilo que não era
Luz falsa como isca
Para a caça vamos todos para a casa

“Vagalume vem-vem
Teu pai tá aqui
Tua mãe também”

Agora as noites são brancas e o jogo
De iluminação não seduz mais pois
Tudo é cegueira e holofote e clarão
Tudo é frieza e capote e neon
Como encontrá-los quando não há escuro
Que nos permita ver as pequenas faíscas?

“Vagalume vem-vem
Teu pai tá aqui
Tua mãe também”

Eis que me vem a quebra
Dentro de um pequeno pote de vidro
Reviso e reconstruo tudo que antes acreditei
Pois são vagalumes aí dentro você me diz
Caçados todos eles para você
Mas são fogos eu digo
Só posso vê-los quando as noites são trevas
E percebo então que sou nada senão um
Vagalume em volta da luz que emite
Quente e canto:

“Vagalume vem-vem
Teu pai tá aqui
Tua mãe também”

Dinossauros

Animais
Alimentados por imaginação
Abstrata

Imagina!

Ossos-pedra fundos
Sob terra e rocha e areia
Morte estática como foto
Grafia ausente em tinta negra

Imagina!

Meloso e viscoso
Esse preto óleo que escorre
Sobre minhas escamas de lagarto

Terrível!

Do pouco que restou criam
De mim corpos em exposição
Falsos restos que fingem
A grande criatura que um dia fui

Escolho nunca rugir
E deixar isso para sua imaginação