Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Month: November, 2016

Tritão

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Não exiges de mim enigma algum
Devoras-me sem o direito de escolha
E gosto

Como demonstração de piedosa fome
Antes me seduzes com tempestade e ímpeto
De quem com o som constrói o sentimento
Vindo de todas as vísceras do nosso corpo

Homem-peixe
Teu membro rijo me consola continuamente
Impiedoso e intermitente
Invasor de vazios que precisam ser preenchidos
Com constância e candura
Amante marinho que apesar do mar trôpego
Consegue sempre manter minha náusea
Em terra firme

A loucura de Odisseu é febre quente
Cuja cura virá somente quando preso
Em teu mastro
Encurralado pelo teu encanto
Serei a sempre tua
Distância e aproximação
Da década que nos coloca juntos
Como a frágil linha que liga
Nosso mais abissal monstro
Ao nosso mais humano corpo

Mergulhemos?

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Betania

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Somos filhos da madrugada

Entre-lugar
Momento de transição
Nem dia tampouco noite
Apenas o silêncio do negrume
Do mundo

Negrume que se entranhou
Em seus olhos
Pérolas negras atlânticas
Profundidade de oceanos seculares
Embora venhamos das águas
Há o fogo-signo que nos retroalimenta
Os amores e as vontades
De sermos senhores de nós mesmos
Absolutos indissolutos
Inteiros nós e inteiramente todos os outros
Que bem sabem da nossa performance de ser

Embora venhamos do fogo
Forjaram-nos da água turva cheia
De sargaço
Lua cheia de ressaca bravia
Valentes não somos nós
Mas sim aqueles que se atrevem
A nadar no vasto oceano
Que construímos dentro
E fora da força
Que nos mantém de peito aberto

Para o sal marinho
Que brota de nossas mãos
Para as cinzas do incêndio
Que se inicia dos nossos pés

Energia motriz que ilumina
Com um sorriso