Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Month: September, 2017

Liminar

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Descobri hoje
Para a justiça e para a psicologia
Sou doente enfermo
Paciente transtornado
E por isso
Preciso de tratamento
Remediação

Coberto hoje
Para morto amanhã

Tenho de ser recluso fora
Longe da comunidade
Quarentena sexual
Chaga do desejo indiscutível
Que de tão proibido
É objeto obscuro
De muitos em negação

Não!

Recuso a medicação
Pílula-veneno
E aceito a delícia da febre
Daquilo que pulsa em dor
A respiração que ofega
Mas nunca falha
O peito arfante em suor frio
Os dedos que agarram cama e carne
Em busca do norte
E da morte doce como o doce
Que você secreta só para mim

Que deixem a cura ao cu dos malditos
Supositórios malignos
Pois do meu cu cuido eu
E introduzo nele o que eu quiser

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Presa

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Semana passada
Pela primeira vez
Senti o medo
Em casa
Onde nunca o horror
Deveria residir
Mas ele entrou
Sem convite
Visita inesperada
Pude ouvir do corredor
Vozes

Casa só de veado
Bando de bichona
Tudo baitola

A obviedade na chacota
Porém a ameaça do humor
Impetuoso

Semana passada
Pela primeira vez
Senti a segurança deslocada
De casa
As portas tornaram-se papel
Minha pele suscetível à faca
As chaves inúteis todas
Só pude pensar
Em como fugir
De casa
Porque por segundos
De casa eu não era mais

Sobrevivência animalesca
De ratos contra a parede
Esperando
O inimigo furar meu ventre
Tomado pelo furor do desespero

Da Jaula

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Anos corridos
E retorno
Ao entorno da jaula

Onde antes vivia
Criatura de pelos e de garras
Amansada pelos olhares
De carícia e exibição
Restam o nada e a natureza

A materialidade da ausência
Me impele para fora
Não há mais barras
E ainda assim
Não ouso transpassá-las
Não ouso atrever-me
Não ouso pisar em terreno sacro
E seco de vida que não mais é
Pois o animal que vivia dentro
Vive ainda dentro mas secreto
Ele secreta das presas raiva e ruído
E tem a certeza da solidão
Porque da jaula
Ele nunca vai querer sair