Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Category: contos

Vagalume

São vagalumes, penso, mas não exatamente. Cheguei a falar em voz alta, talvez, pois ele logo grita um o que, para logo eu sussurrar um não é nada, dando, então, continuação ao que fazíamos. Todos os prédios à noite, são lindos eles, penso: em espaços intercalados, são pequenas luzes sempre acesas por toda a madrugada, sem exceção, na calada da cidade. Calada, gostosa. Pensamento é eco, abstração como forma de fuga. Exceção. É incrível como consigo manter meu corpo insensível, opaco e empacado, nem ao menos translúcido. Não sou lúcida e nunca fui. Sou vagalume. Sua vagabunda. Ouço um tapa antes mesmo de senti-lo no rosto, e meu olho desfecha nervoso, pisca-pisca de árvore de natal, rápido, reação involuntária porém precisa e sincronizada. Enervamento, palavra interessante de se usar. Minha irmã costumava ler o dicionário, página por página, pacientemente, palavras soltas que, no ar, feito borboletas ou quem sabe pirilampos, catava ávida. Antes de morrer, por conta de um câncer na garganta, ficou um ano sem poder falar, mudinha, garganta inútil ao uso, inutensílio raso, raspado, tantas palavras trancadas de volta ao dicionário, completo desperdício de tempo foi esse. Um tumor. Você é um desperdício de tempo de dinheiro de espaço de corpo. Sua vadia. De alguma forma, meu corpo é posto de bruços, manipulado. Minha bochecha sente o travesseiro molhado de saliva e suor, nenhum deles meus. Talvez dele, ou de qualquer outra que ele tenha trazido aqui enquanto eu estava fora. Insaciável. Insalubre. Insuportável. Insensível. Feito meu corpo, falo, mas não exatamente. Chupa minha pica. Não preciso da boca para falar, nunca precisei, nem para pensar. É de família, minha irmã não precisou falar por um ano. Ou talvez precisasse, mas nunca pôde dizer isso a qualquer um. Só morreu. E não é a toa que, apesar de tudo que ele faz, fico fascinada com todas as pintas de seus braços e pernas. Delícia. Sua puta. São vagalumes, penso, mas não exatamente. Talvez vagalumes em negativo, negros, constelação escura, imprecisa em meio a um infinito claro e branco, doentio e nojento. Leite eu odeio. Azedo. Ele fede. Quase coloco para fora minha janta. Que boquinha gostosa. Apertadinha que nem sua buceta. Mas o movimento é outro. É para dentro. E engulo, forçada.
Sou jogada ao chão com mais um tapa.
Sou vagalume e sobrevivo, toda noite.
Efêmera suicida.

Náufragos Do Mar Vermelho

Na verdade, isso é um começo. Nunca antes me dirigi diretamente àquele que lê esse meu mundo virtual. Mas necessito, pois que isso é um começo. Na minha segunda tentativa em escrever um romance, ficção da prosa, sinto que desanimei em tal função. Permaneci por muito tempo na lírica, jogo de palavras difícil porém leve, brincalhão, catártico, no qual eu podia e posso transcender aquilo que vivo e penso. Talvez soe romântico, mas a literatura é, não só para mim, um tábua em meio ao mar, e é nela que me seguro, e é dela que faço em suor outras tábuas para outros se segurarem. Ao menos, é isso que espero: que outros possam se salvar do mar em fúria nas tábuas tão rústicas de mim. E depois de muito desânimo, me levanto do chão, graças a leituras e a livros e a amigos, pirilampos estes que permanecem brilhando enquanto sei que todo o resto se apaga. Logo, obrigado vocês que sabem que são vocês, pois se lhes serve a carapuça, não há saci que se segure.
Uma força veio e espero que seja para ficar. Não me importa mais no que vai dar esse meu impulso de escrita, só sei que o que importa  é que continuarei a escrever, a alguém. Portanto, aqui vai, isso é um projeto, isso é um começo, isso é para você.

M. A.

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            Benjamin disse uma vez que o analfabeto do futuro será aquele que não souber ler imagens, não souber fotografar, e não aquele que não souber escrever. Nunca entendi ao certo o que ele quis dizer com isso. Na verdade, não sei o porquê de ele ter escrito uma coisa dessas e tampouco sei por que eu a li. Leio por ler. Sou um leitor passivo. Minha estante se encontra apinhada de livros que não me dizem respeito, nada ali me convém. Leio-os e só vejo o vazio de letras ao lado de letras e os intermitentes espaços em branco entre elas. O número de livros lidos é bem menor se comparado ao número de livros deixados de lado, incompletos, sem vida. Devo dizer que no começo sentia certa pena, para não dizer arrependimento, mas atualmente sinto nada, nem remorso. Ao perceber que aquela ou essa leitura não vai muito longe, logo fecho o livro e jogo-o em um canto qualquer, de preferência um canto às sombras, talvez debaixo da cama, pois não ver mais aquela capa dura de náuseas facilita a ausência de futuros sentimentos. Então, me dirijo à sala: agarro o controle remoto e ligo a televisão. Prefiro assistir à tevê com todas as luzes apagadas; no completo escuro seria senão fosse por aquela tela tão iluminada pela própria luz, uma luz profana, como disse também, uma vez, Benjamin. Creio, porém, que ele não estava se referindo a televisões.

            Mas eu disse profana, dizendo de Benjamin em sequência, pois é apenas esta palavra que me vem à cabeça quando ligo a tevê: profanação. Sou jogado em um torpor sem fim, letargia infinita e pesada que me prende onde quer que eu esteja. O sofá se torna minha cama e as idas à cozinha e ao banheiro são intervalos rápidos para satisfazer minhas necessidades mais básicas.

            Pois que então começo. Posso dizer que ela, a tevê, está ligada, mesmo estando com o som desligado, em outro cômodo, por apenas perceber um leve zunido no ar, uma linha estática de energia percorrendo todo o ambiente. É impossível não sentir a força daquilo que passa em seu interior: embora saiba que seus membros são tão reais quanto o gigantesco número de livros que li na vida, aquela família que consome aquela margarina parece tão feliz, o marido abraça a esposa enquanto ambos observam sua prole cujos estômagos parecem receber apenas aquela margarina tão amarela quanto o sol que brilha na janela de manhã, são todos saudáveis e sentem um amor incondicional entre si, e é isso que importa, afinal, eles são usuários assíduos daquela margarina, antes mesmo que possa perceber a abrupta mudança, jovens surgem felizes, bebendo aquele refrigerante, aos montes, devem ser primos distantes, quem sabe de terceiro grau, daquelas crianças que só comem aquela margarina, pois também são saudáveis e alegres, além de serem descolados e modernos, sabem o que fazem e fazem o que querem, a batida da música ao fundo é tão alta ao ponto de me forçar a abaixar o volume da tevê, ah, aquele supermercado aqui do lado de casa está com promoções, e é só amanhã, arroz cinco quilos, sete e vinte e cinco, feijão preto o quilo, um e sessenta e sete, café quinhentos gramas, três e quarenta e oito, ovo a dúzia, três e quarenta e nove, sabão em pó meio quilo, quatro e noventa e oito, amaciante de roupas um litro, dois e noventa e nove, detergente, apenas setenta e nove centavos, lagarto o quilo, sete e noventa e cinco, filé de peito de frango, cinco e noventa e oito o quilo, uma mulher me olha, profundamente, e me explica, demonstrando sua bela pele de veludo, branca, europeia, como o tempo pode causar danos à pele feminina, entretanto, ela conseguiu retardar tais efeitos apenas utilizando aquele rejuvenescedor daquela companhia cosmética, e então, se é mais jovem por muito mais tempo, estoura da tela aquela cerveja suada, sexy tanto quanto aquela mulher, não a daquele rejuvenescedor daquela companhia cosmética, é outra, é loira, é magra, é bonita, é bronzeada pelo sol do verão, talvez por aquele mesmo sol que iluminava aquela família que usava aquela margarina, ela pega aquela cerveja e a bebe, sedenta e sedutora, uma luxúria que transborda dos olhares dos homens que ficam ao seu redor, na praia, sem camisa, com o peito definido e suado, também bronzeados e belos, gostosos, apenas observando aquele corpo de sexo, e uma ereção me surge por entre as pernas, sem saber ao certo qual é o meu objeto obscuro de desejo, escondo-a, por fim, sob uma almofada, envergonhado, e mais mulheres pululam, estão todas sentadas num auditório, cada uma com um crachá, enumerando-as, fossem gado a espera dos homens que surgirão, pois são solteiras, livres, e buscam um relacionamento sério, e feito aquelas promoções daquele supermercado aqui perto de casa, surgem os homens que, um após o outro, mostram aquilo que melhor sabem fazer, pretendentes em vitrines, apelando quase pelados, com ou sem pelos, devem ser os mesmos daquela propaganda daquela cerveja, seus músculos se movimentam numa dança hipnótica, e não posso evitar o aumento de minha ereção, mais uma vez envergonhado, culpado, não há almofada que esconda ambos os fatos, um não posso ignorar, o outro finjo que não existe, e corro ao banheiro para fazer o que tem de ser feito, volto, aliviado, a fim de continuar meu ritual, e percebo que o jornal já começou, corro novamente, desta vez à cozinha, para pegar algo comestível o suficiente para me manter imóvel nas próximas duas horas em frente à tevê, encho um copo com aquele refrigerante, passo aquela margarina amarela num pão qualquer, e levo comigo uma latinha daquela cerveja, tudo comprado naquele supermercado aqui perto de casa, sento ao sofá e percebo que o jornal já passa da metade e que a noite ainda nem começou, como e bebo tranquilo quando vem da tela iluminada um brilho vermelho e o apresentador diz de uma massacre de baleias em algum lugar da Dinamarca, pescadores com seus barcos e lanchas as encurralam numa pequena praia, forçando-as a encalharem na areia, os corpos negros e compridos, brilhantes, pesados, lisos pelo sal marinho, debatem-se em desespero enquanto são degoladas por facas e ganchos, as barbatanas chapinham na água que aos poucos é substituída por apenas sangue, muito sangue, as baleias sangram sem cessar, e as baleias se afogam no próprio sangue, e os pescadores se banham no sangue das baleias, e todas são mortas, cortadas, penetradas, presas na própria incapacidade de sobreviver fora d’água, o mar vermelho cresce no meio tempo em que os cadáveres são retirados à terra firme, uma maresia braba me toma feito o gancho que perfura aquela pele negra e boto para fora tudo o que tinha acabado de comer, sinto o vômito quente subir goela à cima, indo parar ele todo no chão da sala, assisto-me arfando ao tapete, iluminado pela profanação, e não posso evitar de notar a semelhança de meu vômito às tripas que escapam do ventre das baleias, levanto-me enxugando quaisquer resquícios de ânsia da boca e deito ao sofá, adormeço e sinto que sonho, debatendo minhas nadadeiras aos movimentos descendentes dos ganchos que me içam e me abatem em carne negra. A tevê ainda estava ligada quando acordei de manhã e o vômito já tinha se aderido ao tapete da sala.

  

O Escafandro E A Borboleta

A CASCA

Nunca se deve acreditar nas histórias. Assim diziam os antigos, ou os novos, ou seja lá quem foi que o disse. Importante é saber o quanto de mentira pode conter a verdade e o quão verdadeira pode se tornar a mentira. O jogo de linguagem é terreno por demais perigoso, incerto, indeciso e sem precisão, cujos signos com os quais brincamos, ou melhor, cujos signos que brincam conosco, contêm abismos profundos de possibilidades e mudanças. Ao observar o subtítulo, pode-se muito bem ter exemplos para lá de excelentes. No signo Casca, em plena onomatopeia de secura e rudeza, há meios de se deitar sobre variados campos de sentidos: quando ao signo me refiro, estaria eu brincando com o campo semântico dos insetos, se assim me for permitido nomear? Pode ser muito bem casca dura que recobre costas toda do coitado e infeliz Gregor Samsa que, ao acordar duma noite de sonhos intranquilos, se descobre desprezível inseto. Quando me refiro à Casca, estaria eu jogando no campo semântico das metáforas, se assim me for permitido dizer? Com certeza toda pode ser casca firme que envolve sutil feito máscara o doutor Humbert Humbert, escondendo, assim, da sociedade, a verdadeira faceta e seu obscuro desejo por Dolores Haze. Quando há nova referência, não poderia eu também jogar com campos vários de sentido? Tanto não dá para Casca estar apontando a um quanto a outro? Entretanto, o melhor é não se deter em estancamentos reflexivos, apesar de ser intermitentemente possível a permanência infinda em lengalenga tão passível de fruição. Aqui será contada uma história, e o importante é saber que nunca se deve acreditar nela.

Por mais coincidência que pareça ser, devido ao exemplo nabokoviano, o nome é Humberto. Mas de igual só tem o nome, o resto se põe de todo à parte. Nem ao menos aparência se deita em semelhança, tampouco personalidade. Doutor Humbert Humbert é muito mais interessante, diria Humberto. Até mesmo a letra ó de seu nome lhe era vergonhosa; redonda e gorda, um adendo, algo inútil, sobrando, tal qual via seu corpo flácido defronte ao espelho. Isso quando se via em um, pois, desde que tivera o primeiro surto, seus reflexos, agora todos cobertos por vermelhos panos, não mais puderam ser vistos. Nem necessário é dizer que sempre foi sozinho. Família não tem, perdera contato com todos há no mínimo cinco anos; essa foi sua escolha. Perdi paciência, diria ele.

De literatura, admirador exímio, Franz Kafka encontra-se em mais privilegiado lugar de estante sua de livros, sendo essa mais uma coincidência, devido ao exemplo kafkiano anteriormente usado. No quarto de Humberto, um rosto sério e branco de Praga o observa interminavelmente, seguindo-o com olhos negros e tristes por lados todos. Debaixo do retrato, uma frase, Sou feito de literatura, não sou nada além disso. Quem pudesse ver tal rosto magro e pálido, enquadrado em madeira polida, juraria de pés juntos, bem naqueles momentos em que visão errante não sabe ao certo qual fagulha de imagem fotografar, que os olhos do escritor piscavam de quando em vez. Entrementes, em velocidade mesma que fosse feito o juramento, também se desjuraria por igual; isso, pois, ao observar o retrato com mais cautela e sanidade de espírito, se notaria ser tão somente papel o material a compor os olhos kafkianos, mais nada. Porém, não era o que Humberto acreditava.

Franz, chamou Humberto, Humberto, respondeu-lhe Kafka, o que queres. Suas conversações só se tornavam possíveis à noite, quando o abajur se ligava e a luz laranja escondia em sombras de baixo para cima os rostos com certas inclinações à melancolia. O que queres, perguntou novamente o escritor, Preciso saber o que quero para poder conversar com você, indagou Humberto, A partir do momento em que se abre boca e proferem-se palavras, estamos a querer algo, Pois já não sei o que quero, Não é o que tu mostras, O que mostro então, Já o disse, que estás a querer algo, Mas já respondi, não sei o que quero, Portanto nossa breve conversa para por aqui, Não, Não o que, Não quero que pare, Ah, chegamos a um ponto, queres algo, Quero, Então diz, Dizer o que, Diz o que queres, Não quero que pare a conversa, Deixa disso, não me dês o óbvio, quanto a mim, sei o que quero, e quero o não-dito, repetirei a pergunta, o que queres, Quero conversar, Ah, esplêndido, descobrimos o que querias, Então vamos conversar, Se não percebeste, estamos a fazê-lo por esse tempo todo, é magnífico, o que querias já estava sendo executado há muito, Vou perder paciência, Azar será o teu, pois não sou eu quem necessita de comunicação, Nem sei porque ainda não joguei você no lixo, Tampouco eu sei, sou somente um retrato, esqueceste, Um retrato tagarela, isso sim, Quem quer conversar és tu, não eu, Cala boca, É isso que queres agora então, Não, Pois decide, senão quem perde paciência será outro além de ti, Desculpa, Não é necessário, afinal, não passo de um retrato.

Aqueles momentos de penumbroso silêncio que sempre calcava o chão após minutos de farpas trocadas com o escritor tcheco mantinham Humberto em estado de profundo desassossego. Vontade de sair de lá era grande, meter-lhe o pé ao balde, chutar da barraca o pau, jogar o que em mãos tinha acima da cabeça. Porém, tais vontades tão excêntricas, podendo chamá-las irracionais, ou até mesmo desajuizadas, não eram tão grandes quanto querer, precisar, necessitar do mais profundo âmago criar laços comunicativos, nem que somente enfim guiassem ao desassossego. Defronte à desesperada situação, afinal, Humberto continuou em pergunta, O que você acha, Acho eu sobre o que, disse-lhe Kafka, Faz tempo que estou querendo saber sua opinião, Só vou saber minha opinião sobre algo, se esse algo tu me disseres o que é, Quero saber sua opinião sobre o que tenho feito, E o que tens feito, Ora, não se faça de bobo, Afinal, queres saber sobre qual dos dois, Sobre ele, Tens certeza em querer saber minha opinião, Absoluta, Então tu pareces não ver com teus olhos próprios, Como assim, Se eu que possuo olhos de papel consigo ver, porque então tu não vês que só mal fazes a ele, Mal, Sim, mal, Não entendo, Pois logo entenderás, eu ando visitando o pobre coitado, Como consegue isso, Sou um retrato, esqueceste, posso perambular por entre outros, há um Magritte lá embaixo, La Reproduction Interdite, e o quadro dá de frente à cela, me permitindo assim uma boa visão do rapaz, Mas, que quer dizer com só faço mal, Ele está infeliz, Como infeliz, não deixo faltar nada, tem tudo ele, Tem-se tudo quando preso está, Eu não sei, Pois deverias saber, Me fala, fiz algo de errado, Não me é necessário responder, Mas me é necessário saber, minha culpa não é, Foste tu que o colocaste lá, Sim, Então a culpa não seria minha, seria, Eu odeio o jeito que fala, Que jeito falo, Fala como se tivesse desprezo por mim, E há outra coisa para se ter depois do que fizeste, E o que fiz, Além de ti não há ninguém aqui melhor para dizer.

Não houve tempo para responder, retrucar, ou até mesmo manter o silêncio de desassossego que tanto incomodava Humberto. Fluxo de conversa e pensamento foi em absoluto interrompido por barulhos muitos que soaram por toda a casa; assemelhavam-se a louça e vidro indo de encontro ao chão e aço. Feito som que se espalha interminavelmente, eco lento sobre o teto, parecia que se quebravam tais objetos em cada centímetro do quarto. Como se tanta festaria sonora não bastasse, os créquis e cráquis foram seguidos por abafado grito, uivo de lamento e dor empurrados pelo silêncio, cujo peso se fez por presente como chumbo à consciência de Humberto. Ao meio tempo, Kafka havia desaparecido, deixando para trás um vazio cinza dentro da moldura polida. Porém, antes mesmo que um cadê pudesse ser dito em alta voz, o escritor tcheco voltou, mostrando em retrato falado, mostrado, desenhado, ou seja lá o que fosse, feição não muito digna de tranquilidade. Há sangue, fumegou ele, muito sangue. Nem foi preciso dizer palavras a mais, Humberto já descia em velocidade escadas abaixo.

O SANGUE

Sangue nunca um problema foi para o Escafandro, era o que tinha de melhor. Desde pivete necessitava tirá-lo a fim de que examinassem o conteúdo vermelhusco que em seu interior habitava. Nojo não tinha, tampouco se entornava em enervantes sintomas. Acostumara-se logo como quem todo dia acorda cedo à madrugada e mantém hábito de coruja por vida toda. Líquido aquele o fascinava de maneira tal ao ponto de manter pensamento esvoaçante em pleno voo, voo no qual se questionava a real importância do Sangue; escrito este, e diga-se logo de passagem, em maiúscula, pois, para o Escafandro, havia diferença grande entre sangue e Sangue, e somente ele poderia explicá-lo. Quanto a este que agora rege palavras tão sôfregas de uso milenar, cujo nome passou por várias mudanças e revoltas; este cujos dedos seguram caneta, pena, carvão, ou digitam em máquina de escrever ou em teclado de computador; o artista, o escritor, o escriptor, o druida, o doido, o louco, o narrador, ou simplesmente ninguém, pois há dúvidas quando se diz que tal história está sendo escrita; este alguém cuja identidade ainda um dia será revelada e enfim sossegaremos cabeças cansadas de pensar, possui extremo temor ao sangue, e não ao Sangue. Que já fique registrado, temor este não se põe em bases sem fundamentos. Pelo contrário! Ao inverso do Escafandro, deste alguém, ou ninguém que escreve, vem um medo do profundo da garganta, enjoo de maresia braba, feito mar revolto que se balança dentro do estômago. Quando se dá na vista o líquido negro da vida, grosso como quando não se dilui groselha em água, olhos se cobrem em luz de explosões brancas, cegando sanidade e remexendo tontura. Nas extremíssimas ocasiões, este alguém-ninguém se desventura, se desvanece, se desvantaja, ou, em melhores palavras, se põe ao chão, mete a fuça na poça, dá de cara com terra, rebate face na quina, quebra-dente, quebra-queixo, quebra-nozes, em suma, desmaia ao apenas ver sangue. Entrementes, sobre outra pessoa é preciso saber, e não os medos e temores de alguém cuja identidade nem ao certo se sabe.

Do Escafandro, nome próprio não se é conhecido, nem ao menos é necessário conhecê-lo. O signo escafandro já diz tudo, e o tudo nele já se encaixa. Tanto faz aparência, tanto fez personalidade, tampouco é relevante desejos e ilusões, poderia ser qualquer um aquele que amizade teve com Humberto. Poderia ser qualquer outro aquele que sofreu tais implicações narrativas. Mas por mais infelicidade que pudesse ser, assim o foi.

A qualquer um é desconhecido a exata época em que se fez encontro e conhecimento de duas figuras tão opostas em complementação. Pode-se imaginar que em tarde calma de domingo ensolarado se deu o conhecer de Humberto com o Escafandro. Ou até mesmo pode-se criar encontro este num começo de manhã com nuvem única no céu castigando a terra com consideráveis gotas dágua. Mas como logo se percebe, detalhes assim, minuciosos, tão bem elaborados, belos, retocados com toque de melancolia, e ao mesmo tempo inúteis de simbolismo e significado, não devem, e nunca deverão ser levados em conta. Não há nada mais sem valor que isso.

Amizade de ambas as figuras foi longa, perdurou-se por tempo largo de duração. Mas em dia de extremo frio, e esse detalhe sim que é de utilidade significativa, Humberto em absoluta rapidez sumiu, deixando atrás de si mais nada que ausência, ausência esta que pouquíssimos se fizeram por perceber. Como que se por sobre a terra tudo passasse, a existência daquela pessoa singular esvaneceu-se ao pó. Nem sequer pululavam das bocas alheias frases de cunho indagativo como, Onde será que ele está, Faz tempo que não o vejo, Me disseram que viajou, Soube ontem que nem mais mora por aqui, Ouvi dizer que teve de ir ao estrangeiro devido doença estranha, Falam que parente morreu, Me sussurraram que ele morreu. Afora as falácias das línguas, única certeza possível de afirmação é a não morte de Humberto, mas seu desaparecimento, sendo forçado ou não, somente ele que o colocará em cheque, aliviando, assim, demandas da necessidade tão urgente de curiosidade. Anos se passaram após tal ocorrência instigante, e o Escafandro, como qualquer pessoa em normal sanidade faria, manteve a vida virada à frente e avante. Teria se mantido assim se num mesmo dia de extremo frio, Humberto não voltasse. Voltei para ficar, disse ele momentos antes de pôr o amigo para dormir. E assim, o Escafandro já acordou preso.

Foram de constantes agitos os primeiros dias. Em fúria de sobrevivência cega, o recém-aprisionado parecia não perder forças de infinito suprimento. De lá para cá andava avoado feito passarinho que não nasceu em cativeiro, batendo asas em cada canto que lhe fosse possível da gaiola, como se, nalgum momento de fraqueza, aquelas barras de metais frias se espatifassem sob força constante. Mas de nada adiantou, e o Escafandro não demorou a perceber. Logo depois da primeira semana, em que tentativas fartas de fuga tornaram-se fartas de cansaço, o ânimo de espírito lhe fugiu do apoio. Além do mais, o corpo já reclamava por comida e água, e mais alguns dias naquele estado se mostrariam insuportáveis. Somente uma semana depois que Humberto apareceu. Levava junto de si apenas uma bandeja com uma seringa descansando sobre o metal. Por favor, por favor, me deixe sair, gritou o Escafandro ao vê-lo, mas de nada adiantou; em única resposta curta e ríspida aos pedidos do prisioneiro, Humberto disse em ignorância, segurando a seringa cheia dum líquido com aspecto nem um pouco digno de confiança, Injete em você, Não, não vou colocar isso em mim, Você coloca ou eu vou colocar, Não, Se eu quisesse te matar, estaria cadáver há tempos, Não, me deixe sair, o que eu fiz, por favor, me solta daqui, Não, Por favor, me solte, você, nós nos conhecemos, não é, seu nome, qual é seu nome, você é Humberto, eu me lembro de você, Injete, Porque você sumiu daquele jeito, não avisou, não se despediu, nem sequer escreveu, Injete logo, Tantos anos e você parece o mesmo, mudou nada, porque está fazendo isso comigo, o que fiz para merecer, Injete logo esta porra. O Escafandro acordou algumas horas depois. Seu olho esquerdo pulsava, mal podendo abri-lo de tão inchado, e uma insensibilidade aguda tomava-lhe o pescoço. Ele me injetou a seringa, o prisioneiro pensou no mesmo tempo em que percebia as consideráveis mudanças feitas em sua cela. Onde antes o nada se sobrepunha, o tudo se descobriu. Podia-se chamar aquilo de tantos nomes possíveis, exceto prisão. Uma cama, uma escrivaninha, um aparelho de som, cedês, livros, cadernos, lápis e canetas, e assim em diante, até uma pintura podia ser vista do outro lado do recinto além das grades, mas não sabia ao certo de quem era. Se o Escafandro necessitasse de algo, com toda a certeza do mundo este algo seria achado ali, dentro da cela. Não entendeu o porquê de tudo aquilo. Queria dormir apenas e deitou sobre a cama exausto.

As horas seguidas pelos dias se esticaram largas perante o prisioneiro. O que lhe salvava era sua escassa escrita. Quando menino tentara numa ou noutra vez seguir esta carreira tão acrobática que é a de escritor, mas logo desistiu. Perante tal presa situação de angústia, logo fez voltar seu gosto pela tinta e começou a escrever um diário. Contavam-se as diárias de acordo com seus textos de tempos de cativeiro.

Centésimo primeiro dia, Não sei exatamente por quanto tempo manterei isso em pleno funcionamento, nem sei porque continuo a escrever. Simplesmente resolvi deixar o último caderno de lado, pois estava começando a lê-lo, novamente. Sinto-me diferente, talvez mais leve. Mas, ao mesmo tempo em que essa leveza parece me preencher, um peso duma certa responsabilidade, ou melhor, culpabilidade, se mostra mais visível. A mudança de humor ainda continua a mesma, sendo diferente apenas em sua duração e intensidade. Antes eu podia me considerar frágil demais, não que agora eu tenha deixado de ser, pelo contrário, tenho a plena certeza de que sempre serei assim, mas é justamente esta certeza que me mantém em pé, enquanto assim for. Nesses últimos tempos aqui preso tenho me deparado constantemente comigo mesmo, sendo quando Humberto aparece em suas diárias visitas mudas, sendo também nas minhas horas de solidão. Como se a cada momento, a cada palavra que pensasse, um grande espelho abaixasse dos céus, ou subisse dos infernos, e me mostrasse quem eu sou. Mas creio eu que seja sempre uma impressão falsa. Afinal, é apenas um espelho. Ainda fico impressionado com a frieza do silêncio de Humberto, e aposto que ele também fica com a minha. Ambos não trocamos palavras. Nossa comunicação é silêncio. Sua tarefa é apenas me manter vivo, trazendo aquilo que julga necessário para tal. Mas creio eu que tudo isso que ele faz por mim, de boa ou má intenção (ainda não consigo descobrir), nunca será suficiente para me suprir de coisa qualquer. Eu estou preso, e assim continuo. Só gostaria de saber o que ele pretende… Éramos amigos, mas ele não parece querer meu mal, mas não consegue meu bem me prendendo aqui. Sinto-me doente, tanto de corpo como de espírito. Às vezes penso que não poderei aguentar por mais tempo. Nesta madrugada, no silêncio de sempre em que me encontro, recebi uma visita inesperada. Uma mulher surgiu pela porta na ponta dos pés, como se fizesse algo de errado e estivesse a fugir por isso. Não me disse o nome nem sequer dirigiu-me palavra. Aproximei-me dela com apenas a grade entre nós e segurei sua mão. Com centímetros de distância pude observar cada mínimo detalhe que antes a sombra do quarto não permitia: ela era pálida e demonstrava um cansaço extremo, semelhante ao meu. Tinha os cabelos longos e negros, tão negros como se a escuridão do quarto fosse o segmento contínuo de seus fios. Seus olhos… Ah! seus olhos foram indescritíveis no momento, e só agora que palavras para descrevê-los me aparecem: olhos dum castanho escuro cuja absorção da luz tragava a tudo e a todos. Inclusive a mim. Eram frios, ambos tristes, e senti simpatia imediata. E, deixando-me mais surpreso ainda, pois ninguém em minha situação esperaria tal visita, ela me disse sem precisar dizer palavra sequer, Não te preocupes, não estás sozinho, estamos no mesmo mar. E saiu do quarto de igual modo que entrou, calada e silenciosa. Preciso vê-la novamente.

E como último registro se mostra esta última frase. Dez minutos depois o Escafandro chorava. Mais dez passados, ele jogava tudo contra a cela como se suas coisas fossem um contínuo do corpo. Adicione-se cinco minutos e uma caneta era o que mais chamava atenção em seu corpo. Em seu peito. Fincada. No coração. Foi neste momento que Humberto chegou. No silêncio ele segurou o corpo inerte, pesado feito escafandro, enquanto Kafka observava, através de Magritte, as lágrimas de um se misturarem ao Sangue do outro.

A CARNE

Por que lês isso, perguntou Kafka, Você que escreveu, afirmou Humberto, Disso eu sei, Então qual o problema, não gosta do que escreveu, Não, São seus diários e cartas, Eu sei, Todos muito bons, Discordo de ti, E posso saber por qual razão, Nada do que escrevi vale a pena, E ainda me pergunto o porquê disso, Consumiu-me a vida, E desde quando teve uma, E até quando ignorarás que perdes a tua fora, Vivo aquilo que leio, Eu pensava da mesma forma e agora sou um retrato, Eu leio, não sou escritor, Creio eu que ser leitor é mais perigoso que escrever, estão aí Bovary e Quixote para isso, Ah, fique quieto, estou lendo, Tu não sabes conversar decentemente, sabes, O que você acha disso, meu amor, não recue diante do habitante da caverna, Como te atreves, Ué, você não detestava aquilo que escreveu, Sim, mas esta frase é minha, Não é mais, esqueceu que só é um retrato, Como consegues estar assim, tão tranquilo, depois do que houve com ele, Não foi minha culpa, Duvido muito, Não fiz nada, foi ele quem acabou com a própria vida, Duvido muito, Duvida de que, Não é preciso matar diretamente alguém para fazê-lo cadáver, Minha vida encolheu e continua encolhendo, Agora começarás com jogos então, Foi você quem começou, Nada nunca é o bastante a ti, não é, Humberto, tampouco a noite é suficientemente noturna para seu juízo, Pois é, Franz, parece que temos muito mais em comum do que antes achávamos.

Humberto fechou o livro num baque seco, desligou a luminária que mantinha o mínimo de iluminação dentro do quarto, e saiu pela penumbra porta fora deixando Kafka para trás. Da caverna, pensava Humberto, sou o habitante da caverna. O animal sujo e peludo usava as unhas gastas a fim de que o caminho afrente fosse aberto e transitável. Era-lhe pesado aquele subterrâneo, sempre abafado por sopros de vapor que subiam da terra fervilhante de húmus. Úmida e pegajosa sua pelagem ficava pelo decorrer da escavação, detritos e raízes pendiam-lhe pelo corpo todo feito cilícios invisíveis. Era cega a pobre criatura, tão cega, mas tão cega que salvação única era guiar-se em confiança ao olfato. Cheiros vários lhe tomavam o conhecimento enquanto seus sentidos tão somente cresciam. À medida que descobria novas rotas de fuga pelo subterrâneo, seu sexo roçava constantemente na terra que passava sob seu corpo, e aquilo lhe proporcionava um prazer indescritível. A carne parecia viva, e aquilo fazia com que seu caminhar fosse rápido e ligeiro, potencializando ainda mais o olfato. Farejando rastejava a procura dum cheiro que durante semanas lhe tomou a atenção, e tudo indicava que tal odor vinha de fora. De fora da caverna.

Humberto entrou no quarto da Borboleta. Presa há tempos indefiníveis, não lhe era útil as asas, mal sabia a arte de voar. Ela dormia, e seus cabelos negros encontravam-se espalhados simetricamente pelo travesseiro que quase se confundia com o pálido da pele. Ela acordou, e sua primeira reação foi um grito agudo porém gutural, que vinha do fundo de seu corpo, um desespero animal perante ameaça iminente. Humberto se pôs em cima dela e logo a fez ficar nua. Sua mão esquerda não deixou de explorar cada centímetro de carne enquanto os dedos da direita entravam lentamente no sexo já quente da moça. Ela chorava, e cada beijo recebido de Humberto era respondido por grunhidos de nojo e agonia. O que você acha disso, meu amor? Não recue diante do habitante da caverna! Humberto manteve-se vestido enquanto abria o zíper da calça e logo apontava seu sexo ao dela. Agarrou aquele pescoço que cheirava tão bem e num movimento único e contínuo, ele fez com que fossem uma carne só. O choro da Borboleta somente se intensificava para, num ápice de lágrimas, permanecer em um silêncio sombrio. Seus olhos castanhos absorviam cada movimento ofegante de Humberto, transformando tudo num condensado ódio, ódio este que só parecia crescer na medida em que o ato chegava ao seu fim. Num certo ponto, não podendo mais suportar aquele olhar incriminador, Humberto botou-a de bruços, apoiando-se sobre aquelas costas magras e arqueadas. Seu corpo tremia frenético sobre o dela, e o suor que lhe descia da pele se misturava à frieza que emanava da outra. A Borboleta voltou a chorar.

Humberto, então, dentro dum momento de curto lapso, estirou todo o corpo, jogando a cabeça para trás, perdendo todo seu apoio, e num arrepio de carne gemeu, gemeu como se sentisse toda a vergonha do mundo. Conjecturas são o que restam.

Suporte

Antes mesmo de estar prestes a deitar com cabeça sobre travesseiro, já me vem a bendita aflição. É como se a cama em sua falsa promessa de conforto me avisasse assim que ao quarto me colocasse, Vê se te cuida, homem, a noite de hoje não tá pra sonhos não. Mesmo com coração numa mão e cabeça noutra, passo por cima de tal informação dada como se tão simplesmente minha presença tivesse de ser aceita e meu sono tivesse de ser iniciado. Miro vista ao despertador e os números zero zero : um dois brilham num vermelho elétrico como a agitação que me toma. Deito feito quem obrigado está a fazê-lo e o corpo que não parece me pertencer afunda em chumbo sobre o colchão macio. Que que adianta se jogar em mim, pergunta a cama, se nem o travesseiro aguenta sua cabeça pesada de pensamentos. Finjo ter adormecido para precisar não responder, mas resposta tão óbvia já se encontra em batimento e respiração denunciantes de sonho acordado. Como se cada virada de corpo, peão que não sabe a qual casa ir, como se cada suspiro fugidio, vento vindo de boca farta de falar, gritasse em bom e alto som perante cada imóvel móvel do quarto, Olhem, camaradas, olhem como a existência me oxida, percebam a reação da vida, assistam-me enquanto morro. E o pior é que nem morrer consigo. Num estado de entre-lugar me mantenho como se acima houvesse o céu, abaixo o inferno, e o que me impedisse de cair em profundezas eternas fosse somente um fino fio de equilibrista a suportar meu peso com leve esperança de nunca arrebentar mas com fria certeza de logo se partir.

Num esfregar de olhos, solto baforada de indignação e inspiro bocado de impaciência. Acabada de ser acesa, a luz laranja da pequena luminária parece deixar todo meu quarto em âmbito falso de aconchego e comodidade. Ponho-me a sentar antes de saber que sentaria, abro mesma garrafa que há três dias se encontra ao lado da cama e bebo d’água tudo aquilo que talvez me fizesse apagar tal qual a luminária, que se não fossem meus dedos, diria ter se apagado sozinha. Leia um livro, sucede a cama, ou vá tomar um chá, talvez acalme a cabeça, Como se cabeça você tivesse pra saber disso, respondo-lhe de mau agrado. Ignorando o fato de que uma cama deu tal conselho, levanto-me novamente, desta vez sabendo do ato, e me dirijo à cozinha. Não me preocupo em acender luz alguma, vou de cômodo em cômodo em densa escuridão cujo grude tomou meus olhos há muito. O pequeno lume amarelo do fósforo que num chisque-chisque dá lugar à flama azulada do fogão, solta leve fumo branco para dentro de minhas narinas, e antes mesmo que qualquer bule dissesse saúde, um atchim poderoso sai-me da boca e sem muito esforço apago a fonte de calor que aqueceria meu chá, pondo-me, assim, na desistência imediata de tentar aquecê-lo novamente. Merda, exclamo ao vazio que zomba de mim.

Dirijo-me à sala a fim de achar em tão gigante estante de livros, solução maior ainda ao insuportável que me suporta. Iluminados apenas por fraco raio de lua recatada, meus olhos dançam lentos de livro em livro, sem necessariamente vê-los. Procuram desesperançados algo que distraia ou até mesmo divirta noite de tédio puro. Com certo atraso de segundos, meus dedos tentam acompanhar valentemente a valsa ocular, porém, por mais infeliz que seja, pendem em certos passos, bem nos momentos em que a vista passa a uma prateleira acima ou abaixo. Somente depois de muito tempo em baile rocambolesco entre vista e dedos, que posso perceber que havia checado a mesma fileira de livros por vezes inumeráveis. Merda, repito desta vez aos vários cadáveres que em minha estante vivem.

Parto em retorno ao meu quarto, e uma vez mais lá minha cama está, jaz parada em sua falsa promessa de conforto. Preciso dizer que te avisei, pergunta a cama, Me avisou do que, indago raivoso, Que a noite de hoje não tá pra sonhos não, Nem precisa dizer, percebi faz tempo já. Deito com força toda sobre o colchão como se uma cama sentisse dor suficiente para calar-se em silêncio de sono. Miro vista ao despertador e os números zero cinco : quatro cinco brilham em vermelho sangue feito mal agouro que me aguarda. Insuportável, suspiro, insuportável.

Eu só não pude perceber que me referia a mim.