Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Category: poemas

Maquete

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Ele falava do viver-junto
Mas aprendo a viver junto
De mim
Simulação romanesca
Autoficção constante
Distância crítica
Assisto às minhas ações
Como num filme
Leio entrelinhas
Todas as notas de rodapé
Retorno a capítulos já visitados

Sou estudante e professor
Do meu alcance
Manipulo-me até
Ser massa disforme
E moldo-me incessante

Tranformado
Transtornado
Transviado
Mas nunca trancado

Sou solto
Palco e plateia
Simultâneos

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Liminar

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Descobri hoje
Para a justiça e para a psicologia
Sou doente enfermo
Paciente transtornado
E por isso
Preciso de tratamento
Remediação

Coberto hoje
Para morto amanhã

Tenho de ser recluso fora
Longe da comunidade
Quarentena sexual
Chaga do desejo indiscutível
Que de tão proibido
É objeto obscuro
De muitos em negação

Não!

Recuso a medicação
Pílula-veneno
E aceito a delícia da febre
Daquilo que pulsa em dor
A respiração que ofega
Mas nunca falha
O peito arfante em suor frio
Os dedos que agarram cama e carne
Em busca do norte
E da morte doce como o doce
Que você secreta só para mim

Que deixem a cura ao cu dos malditos
Supositórios malignos
Pois do meu cu cuido eu
E introduzo nele o que eu quiser

Presa

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Semana passada
Pela primeira vez
Senti o medo
Em casa
Onde nunca o horror
Deveria residir
Mas ele entrou
Sem convite
Visita inesperada
Pude ouvir do corredor
Vozes

Casa só de veado
Bando de bichona
Tudo baitola

A obviedade na chacota
Porém a ameaça do humor
Impetuoso

Semana passada
Pela primeira vez
Senti a segurança deslocada
De casa
As portas tornaram-se papel
Minha pele suscetível à faca
As chaves inúteis todas
Só pude pensar
Em como fugir
De casa
Porque por segundos
De casa eu não era mais

Sobrevivência animalesca
De ratos contra a parede
Esperando
O inimigo furar meu ventre
Tomado pelo furor do desespero

Da Jaula

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Anos corridos
E retorno
Ao entorno da jaula

Onde antes vivia
Criatura de pelos e de garras
Amansada pelos olhares
De carícia e exibição
Restam o nada e a natureza

A materialidade da ausência
Me impele para fora
Não há mais barras
E ainda assim
Não ouso transpassá-las
Não ouso atrever-me
Não ouso pisar em terreno sacro
E seco de vida que não mais é
Pois o animal que vivia dentro
Vive ainda dentro mas secreto
Ele secreta das presas raiva e ruído
E tem a certeza da solidão
Porque da jaula
Ele nunca vai querer sair

Desconforto

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Acordo todas as manhãs
De sonhos-silêncio
E meu corpo está sujo
Carvão fuligem negra
Do incêndio que é meu peito
Mina habitada pela criatura
Que implora conforto todo dia
Mas nunca o tem então
Roga confusa feito criança
Que não sabe por que chora
Que tampouco entende a tristeza
Do confinamento em si mesma
Que procura fuga e por isso dói

Rasga de dentro para fora a carne
Esmaga com punhos cada osso
Me estira músculo e fibra
Me abre enfim

Dor é salvação
O alívio meu Deus o alívio
O horror da plenitude
O vácuo em mim
E a felicidade da criatura
Que foge livre

Análise

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Nem com lança
Tampouco com injúria
Juro que sou o humano
Pós civilização de Freud
E digo humano para não dizer homem
Pois preciso afirmar minha humanidade
Para saciar o monstro que me acorda
Todos os dias
Em todos os lugares
Especialmente quando vivo-junto
De outros tantos
Estranhos que insistem na dizimação
Mútua por meio
De lanças e injúrias
Tão próximos porém longínquos
Como a paisagem que exige a distância
Para não expor sua feiura
Como a doença que secreta
Come carne sob lupa de aumento

Sinto medo do prazer que
Sinto muito
Ao usar as armas dos outros
A meu favor

Fantasmagoria

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De todos os fantasmas
Minha asma foi um dos menores

O agora-mesmo de sua ausência me faz
Visitas ao menos uma vez por semana
Agouro de pelo e cabelo
Negros de piche e noites mal dormidas

Para ser achado me encolho
Debaixo de lençóis com apenas
Os dedos do pé para fora
E espero seu toque que me desespera
Pois é quente demais para vir de uma simulação

Como uma realidade dormitiva
Que desperta do susto de um cochilo
Durante tardes de calor
O suor me agarra na roupa
Como agarram-me suas mãos
Grandes fortes que me amassam
A pele e a resistência
À falta de ar que provoca você

É assombroso que nada tenhamos feito
Mas que tudo tenha sido feito

Tritão

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Não exiges de mim enigma algum
Devoras-me sem o direito de escolha
E gosto

Como demonstração de piedosa fome
Antes me seduzes com tempestade e ímpeto
De quem com o som constrói o sentimento
Vindo de todas as vísceras do nosso corpo

Homem-peixe
Teu membro rijo me consola continuamente
Impiedoso e intermitente
Invasor de vazios que precisam ser preenchidos
Com constância e candura
Amante marinho que apesar do mar trôpego
Consegue sempre manter minha náusea
Em terra firme

A loucura de Odisseu é febre quente
Cuja cura virá somente quando preso
Em teu mastro
Encurralado pelo teu encanto
Serei a sempre tua
Distância e aproximação
Da década que nos coloca juntos
Como a frágil linha que liga
Nosso mais abissal monstro
Ao nosso mais humano corpo

Mergulhemos?

Betania

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Somos filhos da madrugada

Entre-lugar
Momento de transição
Nem dia tampouco noite
Apenas o silêncio do negrume
Do mundo

Negrume que se entranhou
Em seus olhos
Pérolas negras atlânticas
Profundidade de oceanos seculares
Embora venhamos das águas
Há o fogo-signo que nos retroalimenta
Os amores e as vontades
De sermos senhores de nós mesmos
Absolutos indissolutos
Inteiros nós e inteiramente todos os outros
Que bem sabem da nossa performance de ser

Embora venhamos do fogo
Forjaram-nos da água turva cheia
De sargaço
Lua cheia de ressaca bravia
Valentes não somos nós
Mas sim aqueles que se atrevem
A nadar no vasto oceano
Que construímos dentro
E fora da força
Que nos mantém de peito aberto

Para o sal marinho
Que brota de nossas mãos
Para as cinzas do incêndio
Que se inicia dos nossos pés

Energia motriz que ilumina
Com um sorriso

De poeta a poeta

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Escrevo-te não por querer
Mas por precisar
Da precisão
Dos teus movimentos

Talvez venha daí
O peso das minhas palavras
Chumbo-corpo que me põe
Em profundidades
Talvez venha daí
A leveza das tuas
Músculo-semântico que te ascende
Às alturas

Admiro a solaridade
Que emanam teus cabelos e olhos
O que faz de tua fotossíntese
Uma poética do prazer:
Mastigo e digiro
Amargas ou doces
Todas as tuas palavras
Sem indigestão

Já eu soturno que sou
Giro em torno das minhas
Saturno melancólico
Nauseanel inconstante
Que me força para fora tudo
Até que me reste nada
Senão a bílis negra

Mesmo assim
Somos poetas
Mesmo assim
Somos professores
Mas apenas tu és o mestre
Das artes indeléveis e leves
Do corpo e do corpo
Do texto

Aprendo contigo