Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Diná

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Foi mentira
O que disseram

Nove vidas não foram
Suficientes para impedir
Que você fosse

Apesar do meu pesar
Me pesa forte a lembrança
E ainda espero que volte

A me acordar todas as manhãs
Miado manha bigode longo
Convidando a fugir do sonho
Tão só

A me observar atenta quando
Destrincho textos e desvendo enigmas
Misteriosos tanto quanto seu olhar
Âmbar que me julga enquanto julgo escritas

A me ronronar do peito para fora
Qualquer tipo de desassossego de dentro
Vibração rítmica remanejadora
De melancolias intermitentes

Agora
Diná do nada se foi
E não foi mentira
Mas mais pareceu sonho

Por isso que gosto de imaginar
Que você foi ligeira pela toca do coelho branco
Para procurar por Alice
E fascinada pelas maravilhas
Por lá ficou

Não foi mentira
O que me disseram

Vagalumes do Mal

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“Vagalume vem-vem
Teu pai tá aqui
Tua mãe também”

Vozes no escuro da infância repetem
O ciclo da busca por luzes orgânicas
Que piscam e ascendem à noite
Ao céu como lembrança na névoa
Como a fumaça de cigarro do meu pai
Que aceso fingia ser aquilo que não era
Luz falsa como isca
Para a caça vamos todos para a casa

“Vagalume vem-vem
Teu pai tá aqui
Tua mãe também”

Agora as noites são brancas e o jogo
De iluminação não seduz mais pois
Tudo é cegueira e holofote e clarão
Tudo é frieza e capote e neon
Como encontrá-los quando não há escuro
Que nos permita ver as pequenas faíscas?

“Vagalume vem-vem
Teu pai tá aqui
Tua mãe também”

Eis que me vem a quebra
Dentro de um pequeno pote de vidro
Reviso e reconstruo tudo que antes acreditei
Pois são vagalumes aí dentro você me diz
Caçados todos eles para você
Mas são fogos eu digo
Só posso vê-los quando as noites são trevas
E percebo então que sou nada senão um
Vagalume em volta da luz que emite
Quente e canto:

“Vagalume vem-vem
Teu pai tá aqui
Tua mãe também”

Dinossauros

Animais
Alimentados por imaginação
Abstrata

Imagina!

Ossos-pedra fundos
Sob terra e rocha e areia
Morte estática como foto
Grafia ausente em tinta negra

Imagina!

Meloso e viscoso
Esse preto óleo que escorre
Sobre minhas escamas de lagarto

Terrível!

Do pouco que restou criam
De mim corpos em exposição
Falsos restos que fingem
A grande criatura que um dia fui

Escolho nunca rugir
E deixar isso para sua imaginação

Baleia

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Teu corpo
Me fascina

Longo e largo leio
Teus movimentos
Como livros abertos
Na imensidão negra
Do dicionário deserto

Palavras são bolhas de areia
Que queimam quando saem
Pelo teu espi(o)ráculo na cabeça

Pareces sonhar sempre
Com o silêncio absoluto

Enquanto cuspo signos
Como quem cospe sangue

O arpão te entra mas
É de mim que vazam
As estrelas – do mar? –
Prontas a entrar em
Combustão

Somos peixes fisgados pela boca

A Secura É Rude

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Reveste perfeita
A pele grossa
De sol
A gosto no rosto
O sal
Não do mar mas
Do suor
Que dói ao sair
Dando luz ao fogo
Há tempos fátuo

Um brilho na noite
Clara que revela precipitações
Do abismo que escorre pelos meus dedos
Como cola permanente

Eu devo chorar?
Nunca

Pois se caso faça
E leve as mãos ao rosto
Elas se grudarão tapando minha visão
E minha única paisagem
Será o escuro de uma casa vazia

Cri-me

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Houve tempos
Em que acreditava
Em poesias

Do mais raso abismo
Retirava palavras
Inertes amargas
Gozando-as

A crise foi se render
Ao crime da crença
Absoluta
E me abismar com o vácuo
Dissoluto

Criado: sem ar nem mar longe tanto de qualquer arma para defesa pessoal com medo profundo das vozes dos corais mortos cinzas ocos coxos como minha vontade de álibi que me arrasta fleumático pela bílis negra da compreensão cega porém sábia da escuridão que cresce em mim indelével leve sorrateira criatura viscosa que nunca me largará não importa com quem ou onde quer que eu esteja

O que faço quando
Desconfio do que escrevo?

Agrafia dos séculos,
Sou culpado.

Terminal

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Tanto de tudo
Muita gente
Pouca gentileza
Seguimos máquina
Ciborgues naturais
Embora vivos sempre
Cadáver toda hora
Horror ao vazio
Eu tenho
O horror o horror
Somos todos os mesmos
Apagados
Me toma todo
Me torna nada
Menos
Na metamorfose dele
Recuso a fraqueza do câncer

Quero a força
Do que quer que seja

IN TO

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Num ônibus
Passando pela construção
De arquitetura estranha
Me pergunto onde estou
Estiram-se linhas
– Rio de Janeiro? –
E memórias arrebentam
– São Paulo? –

Posso dizer que tive amnésia
Por apenas cinco segundos





Desesperador.

Ao Estranho

magritte-mirrorNão te ofereço palavras

Há dois anos
Não nos falamos
E mais que o dobro
Que nos conhecemos
Entretanto
Age como fosse nada
Olhos calados boca fechada
Que que houve?
“Somos estranhamente semelhantes”

Nunca nada será o mesmo
Nunca antes o fora
Mudamos
Este é o problema

Carta Ao Pai

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Embora faça tempo
Que não te retorno
A leitura
A ligação continua

Escrevo sob tuas asas
Anagrama fantasma
De Praga a praga
Em uma vida miserável
E fraca

Pela primeira vez
Em vida alguma
Desejo fugir de ti

Decepar-nos as mãos
Queimar-me em cinzas
Esquecer-te de vez
(doente, os dois!)

Do nunca teu,

Adeus
K.