Escritos de Afeto

pois afetar e ser afetado é o que nos resta

Nina

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Rufo o tambor

Sola chapa sobre terra
Firme forma de menina
Cujos olhos-lança caçam
Os sentidos mais interditos
Das florestas mais escuras

Você extrai a vida da seiva
De cor castanha como os cabelos
Que lhe recaem sobre os ombros
Fortes
De quem veio para conquistar
Desbravadora de terrenos novos
Inseguros incautos

Brava!
Que com rigor cerra punhos
E encerra assuntos
Tal como os fez
A linhagem de mulheres
Antes de você

Selvática domadora
Da cultura e da natureza
Faça uso do gênio irrequieto
Com sabedoria gentil
E não permita nunca
Que os animais invadam
A selva só sua

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Aqui

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Aquele que fala da verticalidade
Das cidades
Mente

No horizonte talvez
Faça sentido ao olhar
Falos-concreto ao céu arranhado
Alinhados de bloco chumbo como facas
Fincadas em terra entretanto
Quanto mais perto menos
Verticais as retas

As estruturas curvam-se às avenidas
Diagonais súditas que buscam no asfalto
O alimento necessário à metrópole
Pois a fome de vida é de todos os tolos
O pai que faz sucumbir antes de dar de comer

Fossem chicletes mastigam-se corpos por dentes
Daqueles que nem sequer possuem boca
Sem cor nem sabor a pele ganha rigidez
E o material disforme é cuspido fora
Úmido porque inútil
Inútil porque humano
Humano porque vazio

Aqui jaz o poeta
Sem resistêntcia

Daniel

 

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Foi da constelação
A primeira estrela
Cadente ciente
Do amor esperado

Olhar vitral profundo
Vidrado universo de planetas
A descobrir

Garoto peralta
Astronauta inverso
Que preferiu desvelar da terra
As palavras a desvendar do espaço
Os mistérios

Coração de fogo pálido
Que aquece mas não queima
Crepitação constante
Gentil ao toque
Aos ouvidos doce
É você que mantém acesa
A minha chama

Resistência fria
Ao vácuo da galáxia
E à ausência do oxigênio

Norteia-me!
Enquanto observo o céu
À noite

 

Redações

1989+Lucian Freud+Naked Man on Bed.jpg

Ana C
Não há corpo!
Esses são corpos quem sabe copos
Com a boca virada para baixo
Enfileirados à espera de filetes
De sangue
Translucidamente embriagado
Por sono quem sabe cansaço
De olhar muito tempo o corpo de um texto
Até perder de vista o que não seja corpo
Estrutura mole quem sabe líquida
Ósseo-sintaxe que derrete nas mãos
Feito parafina quente
Os corpos se difundem no momento exato
Em que minha gengiva sangra manchando
A língua

Húmus

8906202434_ab0bd0bbec_kQuente como terra úmida
Sob sol morno
Areia e mar há quilômetros
Distantes apesar
De o sal do suor me abandonar
Nunca

Sinto na ponta da língua
As franjas das palavras
Como a relva rasa
Como a espuma do oceano
Como a flor da pele
Como as pontas da sua barba
Que me resguardam negras
De monstros e homens
Bárbaros tanto quanto seu desejo
De me arrancar faminto do esconderijo
E fazer de nós um banquete com pressa
E sabedoria de quem come sempre
Pela primeira vez

Diná

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Foi mentira
O que disseram

Nove vidas não foram
Suficientes para impedir
Que você fosse

Apesar do meu pesar
Me pesa forte a lembrança
E ainda espero que volte

A me acordar todas as manhãs
Miado manha bigode longo
Convidando a fugir do sonho
Tão só

A me observar atenta quando
Destrincho textos e desvendo enigmas
Misteriosos tanto quanto seu olhar
Âmbar que me julga enquanto julgo escritas

A me ronronar do peito para fora
Qualquer tipo de desassossego de dentro
Vibração rítmica remanejadora
De melancolias intermitentes

Agora
Diná do nada se foi
E não foi mentira
Mas mais pareceu sonho

Por isso que gosto de imaginar
Que você foi ligeira pela toca do coelho branco
Para procurar por Alice
E fascinada pelas maravilhas
Por lá ficou

Não foi mentira
O que me disseram

Vagalumes do Mal

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“Vagalume vem-vem
Teu pai tá aqui
Tua mãe também”

Vozes no escuro da infância repetem
O ciclo da busca por luzes orgânicas
Que piscam e ascendem à noite
Ao céu como lembrança na névoa
Como a fumaça de cigarro do meu pai
Que aceso fingia ser aquilo que não era
Luz falsa como isca
Para a caça vamos todos para a casa

“Vagalume vem-vem
Teu pai tá aqui
Tua mãe também”

Agora as noites são brancas e o jogo
De iluminação não seduz mais pois
Tudo é cegueira e holofote e clarão
Tudo é frieza e capote e neon
Como encontrá-los quando não há escuro
Que nos permita ver as pequenas faíscas?

“Vagalume vem-vem
Teu pai tá aqui
Tua mãe também”

Eis que me vem a quebra
Dentro de um pequeno pote de vidro
Reviso e reconstruo tudo que antes acreditei
Pois são vagalumes aí dentro você me diz
Caçados todos eles para você
Mas são fogos eu digo
Só posso vê-los quando as noites são trevas
E percebo então que sou nada senão um
Vagalume em volta da luz que emite
Quente e canto:

“Vagalume vem-vem
Teu pai tá aqui
Tua mãe também”

Dinossauros

Animais
Alimentados por imaginação
Abstrata

Imagina!

Ossos-pedra fundos
Sob terra e rocha e areia
Morte estática como foto
Grafia ausente em tinta negra

Imagina!

Meloso e viscoso
Esse preto óleo que escorre
Sobre minhas escamas de lagarto

Terrível!

Do pouco que restou criam
De mim corpos em exposição
Falsos restos que fingem
A grande criatura que um dia fui

Escolho nunca rugir
E deixar isso para sua imaginação

Baleia

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Teu corpo
Me fascina

Longo e largo leio
Teus movimentos
Como livros abertos
Na imensidão negra
Do dicionário deserto

Palavras são bolhas de areia
Que queimam quando saem
Pelo teu espi(o)ráculo na cabeça

Pareces sonhar sempre
Com o silêncio absoluto

Enquanto cuspo signos
Como quem cospe sangue

O arpão te entra mas
É de mim que vazam
As estrelas – do mar? –
Prontas a entrar em
Combustão

Somos peixes fisgados pela boca

A Secura É Rude

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Reveste perfeita
A pele grossa
De sol
A gosto no rosto
O sal
Não do mar mas
Do suor
Que dói ao sair
Dando luz ao fogo
Há tempos fátuo

Um brilho na noite
Clara que revela precipitações
Do abismo que escorre pelos meus dedos
Como cola permanente

Eu devo chorar?
Nunca

Pois se caso faça
E leve as mãos ao rosto
Elas se grudarão tapando minha visão
E minha única paisagem
Será o escuro de uma casa vazia